segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Marielle dança

Marielle sorri, olhando os céus
na camiseta branca, no desenho
do muro que grita, em silêncio.

Marielle desfila, seu nome
na placa da rua, as vezes
me aponta a direção, as vezes
cheia de cores no enfeite da parede
as vezes, ao menos uma vez,
separada, Marielle, e Franco.

Marielle, um grito mudo,
presente.

Marielle, por todos os lugares
símbolo e nome e história e luta.
Quando fecho os olhos,
no canto do cisco,
Marielle dança.

Se você fecha o olho
Marielle ainda dança.

Mas Marielle está morta
há mil quatrocentos e quarenta dias
e eu ainda não sei dizer

por que, por que, Marielle
não dança mais
frente aos abertos olhos.


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Não tem mais

Não tem mais arroz.
Ou melhor, tem, mas o quilo
custa uma Alemanha no brasil.

O feijão também acabou.
Quer dizer, não acabou.
Mas é como se fosse
porque o dinheiro acabou.

O trabalho acabou.
A vida acabou.
A vacina atrasou.

Mas tem soja.

Quer dizer, meio que tem.
Tinha, vai ter mais ainda.
Logo mais.
Mas é como se não fosse
porque foi pra fora.

Eu nem gosto de soja mesmo.
E vendemos caro, pra ganhar bem.
Só que não tem arroz.
Quer dizer, tem, mas não tem.

Não pra mim, porque não vendo soja.

Eu queria ter soja.
Assim eu teria arroz, e feijão.
Ou um Iphone.
Ah, mas temos Iphone.

Mandaram, como pagamento pela soja.
Só que não para mim,
porque não tenho soja, nem arroz, nem feijão,
nem o um que sobrou depois da Alemanha.


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Onishiroi Shonin

sábado, 27 de março de 2021

Vinte e seis de março

Hoje, eu não escrevi um poema.
Porque ontem, me deram
três mil seiscentos e cinquenta
motivos para não escrever.

Por extenso, porque não é um número.
Não arredondo, porque não é um número.

Apesar disso, dentro de mim,
o grito
vira, fora de mim,
um suspiro.

Meus dedos cansados seguram a caneta
e firmam o papel.

Eu escrevi. Sim.
Mas, não um poema
por três mil seiscentos e cinquenta
motivos.


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Onishiroi Shonin

sexta-feira, 19 de março de 2021

Olvidar

Olhei pela janela, para cima.
Para longe do jornal, e das telas,
das notícias, de mim mesmo,
e longe daqueles que, logo ali,
seguiam adiante, em olvido.

Minto, pois que, olhos distantes
mas não de mim, ah!, mas não de mim.
Queria, no azul e branco e amarelo
(e no reto concreto de cor desbotada)
esquecer de mim
e do jornal, das telas,
das notícias, e daqueles
(que inveja daqueles)
seguindo adiante.

Fechando os olhos, pensei em algo bom.
Por um instante, fui um
com aqueles em olvido.

Mas não segui adiante.


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Onishiroi Shonin

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Meio de semana

Hoje eu queria ir naquela praia
na qual andamos juntos tantas
(e tantas e tantas e tantas)
manhãs soltas e livres da vida.
Nem sempre fazia sol, mas nas nuvens
sempre vimos que havia um sol.

Nós mudamos.

Pisamos na mesma areia como quase estranhos
e como conhecidos casuais
e como amigos de longa data.

De mãos dadas, naquela areia
como um casal.

Nós mudamos.

Hoje eu queria ir naquela praia
na qual andamos juntos tantas
manhãs soltas e livres da vida.

Só para ficar parado abraçando você
e sussurrando contra o explodir das ondas
que te amo te amo te amo te amo.

Mas, ah! deuses,
é quinta feira.


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Onishiroi Shonin

domingo, 22 de novembro de 2020

Pá pá pá

Eu sonhei que nascia um novo líder
lá no morro do Pau da Bandeira
mas acordei com o estouro do jornal
não na voz do zé do caroço
nem do grito do garoto com papel
mas do helicóptero que no seu pá pá pá
esconde o nada cirúrgico, o abrangente
pá pá pá
e, antes que possam crescer, já temos
que recorrer a pá, meu deus, a pá.

Eu sonhei que nascia um novo líder
lá no morro do Pau da Bandeira
ou em qualquer outro que fosse
alguém do meu povo, minha cor
que é a sua cor também
seu sangue ao menos.

Mas acordei com o estouro, com o som
do pá pá pá.

A novela, continuou distraindo a gente
nos fazendo sentar no sofá
mesmo sendo dia de sol no domingo
enquanto economizamos as lágrimas
porque a água não chega
e fingindo que era exatamente isso
e mais nada
que queríamos.


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Onishiroi Shonin

domingo, 13 de setembro de 2020

Vida adulta

Nem todos os versos de amor
precisam ser épicos e floreados.
As vezes as coisas são simples
prosaicas, banais até,
e perfeitas.

As vezes ocorre um sábado
no qual o sol brilha, embora
não tão forte, só o bastante
para nos fazer parar, olhar
mesmo tendo tanto para fazer.

Parar.
Um do lado do outro,
sem mesmo nos tocar,
os olhos sobre nossa maior
alegria.

Depois a realidade virá.
Mas por agora, no silêncio
o mundo, pequeno fica,
e nos amamos.


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Caos

Mais algumas palavras aleatórias.
Existem somente tantas palavras
mesmo com aquelas que criamos no ato
e somente tantas combinações possíveis.
Vou encaixando, volta e meia rimando.
Tentando.

Fica bonito, as vezes. Outras, falho.
Mas não ser bonito tem qualidade
não é beleza a intenção.
É estética
é arte.
Algo complexo, um pouco além
que nem em prosa explico no verso.
Não encaixa.

Nem sempre tem sentido. As vezes.
Ao mesmo tempo, todos tem e tiveram
o mesmo sentido.
Palavras aleatórias. Encaixadas.
Buscando ritmos, formatos, rimas
ou o avesso disso.

Jogando com possibilidades.
Uma hora, um dia, um evento
talvez
as palavras se encontrem, pelo caos,
ou pela técnica, experiência, amadorismo,
no formato, no encaixe, na sequência exata.

Que atraia você
para mim.


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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Estilo

Fui ao meu lugar favorito.
Quer dizer, quase.
Continua sendo meu lugar favorito,
aquela pedra aonde a mar encontra.

Quase, porque não fui.
Parei na areia, na mar,
olhei a pedra.

Lá, ou aqui,
escrevi um poema, beijei a amada,
cai na mar.

O som, na areia,
como na pedra.

Percebo que estou velho,
pois bebo a memória
no meu favorito lugar,
e questiono a um velho safado
se fiz algo, algo
com estilo.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 7 de julho de 2020

Ela morde

Ela morde.
Daquele jeito que deixa marca
para saber no dia seguinte que sou dela.

Ela morde.
Daquele jeito que dói, que fere
para ser os lábios um livro, registro.

Ela morde.
Daquele jeito que dá vontade, desejo
de pegar, tomar, ter, possuir.

Ela morde,
e tem medo de machucar, de quebrar.

Mal sabe ela que fere o corpo
enquanto eu prendo a alma.

Não sabe que eu pego e cuido
levo para casa, amo. Tomo.
Que eu domino, entro na vida.
Participo, vivo.

Morde meus lábios com teu corpo
que mordo tua alma com meus versos.



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Onishiroi Shonin

terça-feira, 30 de junho de 2020

A mar

Um pedaço de mar, dentro da sala.
Um salão, todo vazio, mas
salinha, minúscula para a mar.

Regras, lições, ordens, objetivos
inúteis, a mar despersa, sorridente
ressoa música do seu ser liberto
carregando em si uma parte do horizonte
para o qual ela vai, do qual veio,
parte do que é, eterno distante.

Da sua incostância, flui
mesmo na aparência imóvel é
sua superfície toda tensão, movimento
um algo de desequilíbrio e paixão.

Aos olhos dos comuns, encanta
as mentes que despertam em desejo
de assim ser livre, horizonte.

Da beleza que cria, que cada momento se torna,
a pedra que de longe observa faz
inspirado na canção dela
poesia.


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Hailie

Alguns a veem homem.
Ela sabe que é mulher.
Nem todos possuem olhos
ou a faculdade do saber.

Ela expressa-se, no jeito, na roupa.
Alguns acham ser cor
e fazem pouco, como se trivial fosse
o cinza-escuro-negro-dor.

Alguns acham passageiro, moda.
Dizem passará, cairá na real.
Um único mundo enxergam, concretizam.
Ela, felizmente, sabe quem é afinal.

Alguns, infelizmente, são muitos e múltiplos,
pessoas de muitas cabeças, mas razão muda.
Ela, muitas vezes só, sobre o esgoto do mundo,
total, una, ideia que é, como buda flutua.

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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Quatro causas

Uma folha de papel que ainda
não sabe o poema que será
quando do tubo chorar sobre ele
(sem soluços, com calma e precisão)
a tinta negra da minha mão.

Meus melhores amigos, sempre comigo,
as palavras em potência dos versos
que ainda virão a ser, se assim
houverem encontrado seu princípio
numa causa final necessária
tornando a mim, deles mero
(mas eficiente)
instrumento servil.

Usam-me, e despedem-se,
viajando à mentes outras que
sem consciência terem, tocam
abrindo janelas nas almas
para ideias que nem sabiam
caber em palavras.

Os poemas, em ato estes,
infelizmente,
não mais me pertencem.

No meu quarto vazio, fica somente
o papel ainda limpo
a caneta ainda cheia
e o caos da mente irriquieta
pura potência, processo,
nunca completa.


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Onishiroi Shonin

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Dois passos atrás

Eis que após tanto tempo
mantendo firme minhas mãos
para que não escorresse
como areia entre os dedos
o meu amor...

percebi que era não eu que segurava
mas as unhas cravadas em mim
que nos juntavam.
Vi no olhar, no calor dos lábios
no desespero da língua que me busca
a alma presa, desesperada.

E foi assim que
entreguei-me ao vento
e tornei-me areia
escorrendo entre as unhas
fugindo daquele beijo
e caindo, caindo, caindo
no fundo do mais negro abismo.

Num último momento,
em que já frio, distante até mesmo
da memória do calor do toque que abandonei
olhei para o céu e vi meu amor
que
livre
sorria.


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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Um verso em solidão

O farol de minha torre permanece
aceso, iluminando as trevas.
Constante como as pedras sobre
as quais me sustento firme, às quais
pertenço.

Meu barco, em meu pequeno píer,
há muito parado mas ainda pristino.
Não é ele, ou a mar, mas minhas mãos,
admito, um pouco cansadas,
que talvez não tenham mais a força
de procurar lá fora a tempestade distante
que me deixou aqui, ao seguir adiante.

Ou a vontade, contra o dever.

Não vivo só.
A luz do farol socorre e atrai
as almas perdidas que navegam
ou se afogam
pelas trevas do mundo.

No farol elas encontram calor e sustento
direção.

O farol é necessário.
Sobre as pedras deste atol
eu permaneço, cuidando da luz,
mas desejando a tempestade
sempre, sempre distante.

Não vivo só.
Mas da luz do farol
que evita que outros aqui se percam

eu cuido só.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 2 de junho de 2020

I can't breathe, ft. Gabriela Cataldo

O dia amanheceu recusando o azul,
no céu, no chão, as ruas vermelhas
do sangue dos nossos derramado,
por uns sentido, outros ignorado.

O fogo que queima na minha'alma
não coube nas veias do silêncio,
foi posto nos carros, nas ruas.
A chama inflama vermelha, e negra.

Mais um negro foi morto e torturado.
Seu crime inafiançável, porte de melanina
pois que mesmo abaixando a cabeça
era ainda um negro.

Um homem negro
morto e torturado.

Há quem ainda acha importante
distinguir, separar, segregar
pela cor de nossa pele.
Como se não bastasse a dicotomia social.

O rei branco na casa um sai impune
com seus bunkers e guardas e cercas.
Pensou em atravessar a rua mas decidiu
não olhar de perto os cartazes brancos
nas mãos negras, ficou atrás das linhas
dos guardas brancos, de roupas negras.

Se acham tão elevados e puros, intocados
com suas mãos manchadas de vermelho-sangue.

Não obstante, eles erguem essas cores
Oscilando suas bandeiras flamejantes.
Todos fascistas, nazistas, racistas
Armados com ódio e desrespeito,
Repletos de indiferença e preconceito,
Repetindo histórias de "não sou mas".

Já não podemos respirar!
Já não podemos nos calar!
Faremos sim, barreira a quem precisa.
Romperemos nosso silêncio,
Encheremos o mundo de protestos.
A injustiça não merece paz.


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Onishiroi Shonin & Gabriela Cataldo

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Flexibilização

Precisamos fazer a economia girar
pois sem moedas para o barco da morte
Caronte se recusa a o rio atravessar
e muitos são os que na fila estão, sem sorte.

Não que não haja aqueles que, em casa
demandam pelo direito de que eu saia
para que gire a máquina de sua fábrica
desde que, claro, eu use máscara.

Infelizmente, hoje não deu para protestar
enquanto eu via as bandeiras, a carreata
precisei numa fila madrugar e perguntar
porque eu constava morto para o auxílio já.

Talvez, apenas poupando o tempo, adiantando
o inevitável.

Precisamos fazer a economia girar
pois sem moedas para o barco da morte
Caronte se recusa a o rio atravessar.


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Johnny was a good man

Mais uma vez, a mesma cena
eu fui visitar na cama de terra
um novo João, o mesmo João.

Mais uma vez eu vi uma mãe
chorando ao ouvir lhe contar
que seu filho havia morrido
por uma bala

que estava perdida
mas foi achada.
A mesma história mal dita
que muda conforme dita
a mesma história maldita.

Veio o anjo da morte
com suas asas girando
pousou, em João tocou
sem falar mais nada
em si João levou
sem corpo, sem nada
a mesma história, maldita
fingindo bala perdida
achada.

Mais uma vez, a mesma cena.
No mercado negociam, permaneço
por minha cor, por minha origem
mercadoria

perdida
ou achada.


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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A bandeira

Em algum momento acreditamos
nos brasões de armas, combinamos
um símbolo de paz para os anos
verdes, azuis, amarelos, brancos.

Lembro ainda, quando jovem na esperança
que à sua visão, me erguia em dança
e uníamos por uma camisa, virava criança
mas, adulto, tal vira só lembrança.

Parece que virou o tempo
resignificaram em um momento
vieram as armas, foi-se o alento
as cores, hoje, novo tormento.

Na flâmula colorida que se eleva
manifesta, contra o sol se revela
em sombria curva que nos leva
pelas mãos de Azrael soprando a vela.

Vou embora, mas não sem lágrima,
já esperava poder morrer pela nação
mas por ela, com ela, em nome dela
e não executado pela sua própria mão.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 28 de abril de 2020

Alguns minutos antes do fim

Me pediram boas notícias e,
se eu pudesse,
um punhado de palavras belas
que tornassem,
como se isso bastasse,
menos dolorosos os dias.

E eu entendo a vontade, pois
tudo que ouço faz do mundo
uma aquarela que tremeluz
sob o filtro da eterna lágrima
presa nos meus olhos que
por resiliência ou desespero
se recusa a correr.

Tivemos que ficar em casa.

Isso não impediu as notícias.
Os nomes, as estatísticas.

Observei o inevitável fim,
já sem forças para sentir
o que realmente deveria
no tão desesperado
crepúsculo dos dias.

No laranja e azul do fim de tudo
enquanto minha esperança se deitava
além do horizonte para nunca mais
uma linha invisível, um papel de seda
e dois ou quatro gravetos
pintou no ar a assinatura infantil
das mãos da criança que voava
em espírito acima das grades
dos bloqueios, das notícias.

No oscilar das rabiolas,
como anzóis alados,
fisgaram meu sorriso de volta
e eu vi que tinha, afinal,

um pequeno punhado de palavras
ainda
belas.


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Onishiroi Shonin