quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Em bangu

Em bangu não tem o leblon presente
o amigão da vizinhança de bicicleta.
Mas tem o preto e branco e azul
cheio de pontas para todo lado.

Soube que aconteceu mais uma vez
e um traficante perigoso foi abatido
com perigosos cadernos e livros
sendo encontrados dentro da mochila.

Soube que aconteceu mais uma vez
e uma mãe foi atingida, não se sabe por quem.
O filho também, mas esse a polícia
disse que ia ser traficante um dia.

Em bangu não tem o leblon presente
com armas não letais e viaturas brancas.
Tem somente o carro preto, a bala rápida
o gatilho solto, a vida de baixo valor

Amanhã é outro dia, mais um dia.
O luto infelizmente tem que passar.
Temos que levantar, ir a luta
e levantar bem alto a bíblia
para que não seja confundida também
com um caderno escolar.



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Onishiroi Shonin

domingo, 11 de agosto de 2019

A maior de todas

Foi uma poetisa que me disse
que poemas deviam ser sobre coisas grandes.
Importantes.

Eu tentei.
Escrevi sobre a rosa atômica e a de barro.
Escrevi sobre filosofia, sobre política
e sobre poesia.
Mas tudo isso pareceu pequeno.
Irrelevante.

A coisa maior que me faz escrever...
a maior de todas que quero em palavras

é a garota de cachos tão grandes
com o olhar profundo que me paralisa
mas me vê inteiro e me derrete
de mãos tão lindas, dedos que quero
entrelaçados nos meus, ouvindo a voz
que sussurra que me ama.

A mulher de versos tão perfeitos
de caos tão puro, coração tão grande,
boca tão gostosa, unhas tão intensas.

Me perdoem quem esperava
versos sobre o mundo, sobre o pensar.

Não há nada mais tão grande, tão maior
quanto ela
para meu verso.


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Onishiroi Shonin

sábado, 10 de agosto de 2019

A escolha

Eu me preparei, cuidei.

Nas coisas bobas, triviais.
Fiz as unhas, cortei pelos,
arrumei e limpei a casa.

Nas coisas simples, da vida.
Liberei minha agenda, organizei
para que tudo estivesse livre.

Nas coisas complexas, de mim.
Cuidei da mente, do corpo,
dormi bem, fiquei feliz.

Nas coisas mais importantes, supremas...
escolhi você.

Por isso naquela manhã
sentei-me na janela
olhando o que ninguém mais via.

No horizonte invisível
carregava minha promessa
de esperar você.

Todos os dias
um mesmo ritual.

Talvez, talvez,
um dia

seja o dia.


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Onishiroi Shonin

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Beija-me

Beija-me
enquanto nossos lábios ainda
estão quentes da promessa
de uma só vida.

Beija-me
enquanto nossas palavras ecoam
o amor entregue sem culpa
sem medo, sem restrição.

Beija-me
enquanto nossas bocas retém o sabor
do vinho que bebemos, do sangue
da mordida, do desejo.

Beija-me
enquanto nossos dedos entrelaçados
nossos corpos quentes
nossa respiração ofegante.

Beija-me!
Beija-me enquanto brilha o sol.
Beija-me enquanto não vem o vento
trazer a noite fria
e o fim do nosso tempo.

Beija-me
enquanto podemos, enquanto...


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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Atrás dos olhos castanhos

Ela me deu o que nunca pedi
ao enxergar em mim o que eu
podia ser, antes de conceber
e com os olhos, na minha alma pedra
esculpir tudo que havia em mim
tirando tudo que eu não era.

Eu dei de volta o que podia
ao escrever o verso que achei
dentro do espírito que encontrei
nos olhos que me enxergavam
mais do que eu mesmo
os versos que ela era.
Os versos que ela me deu.

No objetivo e material, quem olhava
via muito, muito pouco, o trivial.
Café da manhã, um passeio
um pé que se esquenta no meio da noite,
ligações de dois minutos para dizer
eu te amo.

Abaixo da superfície,
bem no fundo de nossos olhares
havia um mundo
havia arte
havia tudo que nós.


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Tudo que pode ser

Existe uma casa, num lugar distante
com um pequeno cercado de madeira
e um portão simples, quase infantil.

Chegando nela, existe um jardim
de grama verde e trilha de pedrinhas
tão convidativo que dá vontade de deitar.

No jardim há uma árvore da qual
um balanço ginga sozinho, sempre
esperando sua criança, sua dona.

Um canteiro, pertinho da casa
coberto de rosas brancas mostra
o cuidado de um jardineiro dedicado.

Os animais de estimação virão ver
a visita que se aproxima em alegria
e correr e cheirar e latir e miar.

Dentro da casa, numa cadeira de balanço
perto da lareira, com um livro na mão
permanece, sempre a espera, um marinheiro.

Calmo, sereno e paciente, ele aguarda
a casa, num distante futuro sonhado
tornar-se, finalmente

lar.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 23 de julho de 2019

Cabe uma penteadeira

Juntos, nós pintamos as paredes.
A sala ficou melhor que a cozinha.
Quando chegamos nela já sabíamos
o que diabos estávamos fazendo.
Rimos um bocado, acho que ninguém mais
tem uma sala pintada de branco-risada.

Colocamos um sofá para dois.
Você escolheu a cor e tecido
um que o gato não consegue arranhar.
Montei a cama, e os móveis
da cozinha, do quarto, da sala.
Tenho uma marca na mão
de todos os cento e doze parafusos.

Penduramos alguns quadros
e ganhamos um elefante.
Eu chamei de mitologia
mas nunca reclamei.

Nós construímos de um lugar
juntos
um lar.


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Onishiroi Shonin

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Lençóis dobrados

A cama está arrumada.
Lençóis dobrados,
travesseiros posicionados.

Tudo no mais perfeito lugar.

Parecia um erro.
A cama já esteve bagunçada,
com a capa saindo
lençóis pelo chão
e os travesseiros sabe se lá
aonde.

A cama bagunçada
tão convidativa.
Tão quente.

A cama está arrumada
e fria.

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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Noite de gala

Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Não é o que parece aqui.
Na noite, cheia de dourado
todos são brancos, muito brancos.
Eu mesmo, em minha pele parda
debaixo desse terno, gravata
e camisa de abotoadura
me sinto branco.

Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Talvez isso fosse bom.
Não aqui, aqui ninguém quer ser
pardo.
No canto de olho percebem o movimento
da mão negra, da pele escura,
que segura a bandeja, os copos.
Mas os gatos, são todos brancos.
Para eles, sou da cor da minha camisa
tão branca, tão alva.

Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Envergonho-me de não me sentir assim hoje.
Nesta noite, negra e dourada
me sinto incomodamente
branco.

Meu sangue é da cor da minha gravata.
No vento, minha pele quente
não sente frio.

Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.

Quem me dera.


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Onishiroi Shonin

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Aguaceiro

Ninguém viu o sol partir.
Na tarde chuvosa os olhos
ficam todos pesados, baixos.
De qualquer forma, no cinza
a manhã e o anoitecer se confundem.

Nem tudo fica cinza.
Os ternos continuam negros
e as árvores que ainda tem
ficam com as folhas mais verdes.
Mas os olhos, semicerrados
veem o chão e o asfalto molhado.

Uma criança brincando pula uma poça
esquecendo para trás seu guarda-chuva
cor de rosa.

Os olhos continuam pesados.
A mãe vê imprudência e doença
aonde o mundo lhe apresenta poesia.


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Onishiroi Shonin