domingo, 24 de março de 2019

Você

Deitei mais uma vez meu coração
no leito de papel, em verso.
Admito, que meus dedos, lentos
estavam cansados das mesmas letras
do mesmo tema
do mesmo sangue.

Mas... mais uma vez.
Não foi escolha, foi tão simples...
uma folha de papel, uma garrafa de vinho
e um tanto de espaço vazio.

Uma poeta me disse, sem me olhar
que poemas deveriam ser profundos
deveriam ser grandes, deveriam ser sobre
Hiroshima. Ou Auschwitz.

Não nego que entendo, e tentei.
Até escrevi sobre a rosa cálida,
sobre o exílio e sobre a neve.

Mas poemas deveriam ser profundos,
deveriam ser grandes, deveriam ser sobre
você.

Mais uma vez, deitei meu coração
no leito de papel, em verso.

Se nada mais, talvez
talvez
nessa noite eu durma em paz.


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 20 de março de 2019

Vir a ser

Olho fixamente a folha branca.
Dizem-na branca, mas tem linhas azuis.
Dizem-na branca, mas talvez devesse ser
alva?
pela forma como é feita.

Olho fixamente a folha branca.
Procurando,
esperando?
as palavras em tinta preta caírem
surgirem?
brotarem?

Mordo a caneta
despejo a tinta
sem saber como
porque?

Nasce o caos
na ordem alva.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Um poema sincero

A verdade é que não foi perfeito.
Claro, eu lembro da felicidade
e de ter feito você sorrir.
Mas a verdade, a verdade é essa.

Eu era falho, e errei muito.
Se algo, se fiz certo algo
foi quando prometi não poder
prometer nunca lhe tirar lágrima.

Eu sabia, ao menos, que era falho.

Ao menos isso. Pois de resto...

Houve alegria. E amor.
Ainda hoje minha memória por
vezes
perdura sobrevoando um momento
um dia, uma semana, um mês
que pareceu perfeito.

Mas não foi perfeito.

A verdade é que eu quebrei tudo.
Acreditei que não eram falhas,
era aprendizado. Acreditei
que iria ficar melhor.
Que eu iria ser melhor.

Mas eu era falho. Tão falho
que acreditei não ter mais
como.

Assim quebrei o que era imperfeito.

Oh, céus. Como eu era falho.

Em minha loucura, minha imperfeição
não vi o que fazia.
Eu destruí a causa da lágrima
junto com a causa de cada sorriso.

A verdade é que não foi perfeito.
Mas havia felicidade,
e agora

não há nada.


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Onishiroi Shonin

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Desastre

Foram dias vermelhos
dias de desastre.

A água veio enfrentar o homem.
Veio também a terra
e o fogo.

Houve o inevitável
e o absolutamente evitável.

Até mesmo a fatídica piada pronta
aquela que está sempre ali
veio também.

No sábado, como sempre
o sol se ergueu languidamente
e fez praia.

Ainda havia luto, certo que sim
mas não dispensamos a praia.



______________ Onishiroi Shonin

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Rosa de barro

Rompeu a barragem.

Para alguns não houve sangue
somente números vermelhos da bolsa.

Para alguns não houve crime
somente o risco calculado, instável.

Para alguns não houve ajuda,
só política.

Não houve multa,
não houve nada.

Ah, mas houve, houve sim.
No mundo que os homens de terno não vêem
houve morte, houve dor, houve esquecimento
desaparecimento.
Houve lama.

Então não se esqueça,
da nossa rosa, a nossa
não-atômica,
rosa de barro, rosa de mata-rios,
não se esqueça, não se esqueça
da rosa de Mariana.

Como assim? Como assim?
Uma nova rosa?
Um novo jardim?

Mais, maior, pior e mais forte?


______________ Onishiroi Shonin

domingo, 6 de janeiro de 2019

Um acidente

Era para ser uma noite daquelas
meio esquecíveis, aleatórias.
Ao menos, assim tudo indicava
entre o cheiro de chuva e o calor
que eram para o verão, normais.

Eu estava quieto, calmo, só,
salvo do mesmo eterno amigo
companhia, uma garrafa de vinho.

Era para ser uma noite daquelas
que nem se chamam normais
pois esquece-se, perde-se,
apagam-se na memória, tão iguais.

Mordi o lábio inferior contudo.

De assalto, súbito me veio
o gosto, a dor, o cheiro
a memória do seu beijo.

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Onishiroi Shonin

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Uma nova era no Brasil

Talvez eu devesse abandonar o verso
render-me a forma bruta, disforme,
da palavra direta, atirada, disparada,
como quem faz do dedo metralhadora,
arma.

Talvez devesse aceitar que o mundo
mudou.
Seguiu adiante, aceitou, virou
algo mais duro, obtuso, ríspido.
Meio sem graça ainda que cômico,
ou desesperador.

Talvez também não seja para tanto
eu somente esteja exagerando,
e fosse mais fácil não parar
mas simplificar, talvez um pouco
mais simples
fique compreensível.
Talvez, se fosse algo assim

menino veste azul
menina veste rosa
Damares acha que lacrou
eu acho que só fala bosta.

Talvez... talvez assim.

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Onishiroi Shonin

domingo, 2 de dezembro de 2018

Meu caro amigo


Meu caro amigo me perdoe a demora em responder
tanto tempo faz a sua última missiva.
Muita coisa aconteceu nesse Brasil a efervescer
entre escândalos e gritos de viva.

Imagino que tenha lido já em algum jornal
que verde e amarelo é o novo preto.
De moda sabe que eu entendo mal e mal
mas Marieta disse que não pode mais vermelho.

Felizmente ainda o futebol é emoção
mas jogador virou bem de exportação.
Soube de reforma no nosso maraca
mas por segurança só as fotos vi de casa.

Aos sábados ainda tem aquele samba do ouvidor
a mesma cerveja aguada, a cachaça ainda amarga,
mas o povo vai dançando para se esquecer da dor
e vai tecendo o dia a dia uma piada.

O Francis me pediu para lhe mandar lembranças,
infelizmente veio a dengue e nos levou as crianças.
Espero mesmo que desta vez a minha carta chegue a ti
soube que pararam os roubos de carga por aqui.

Sinto saudades da nossa prosa pela orla a debater
espero que possamos novamente antes do toque de recolher.
Não se preocupe é mais seguro do que parece na tevê
desde que se lembre de ao rojão ter que correr.

Fora isso tudo na mesma, com a graça do senhor,
do seu velho amigo, como sempre com ardor.
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças,
e a todo o pessoal.
Adeus!

______________ Onishiroi Shonin

domingo, 25 de novembro de 2018

Enquanto a censura não vem

Me falaram que era pela segurança
que quem mata quem mata
não precisa explicar porque mata.
Que eu teria o direito de uma arma
para ser a insegurança
de quem ofende a minha segurança
pois quem atira primeiro é mais
seguro.

Me prometeram lutar contra o inimigo,
o apontaram, o pintaram, o prenderam.
Mas continuam lutando contra o inimigo
que eu não tenho certeza direito do que fez,
nem sei se amanhã serei eu mesmo um,
ou meu próximo, minha próxima,
o mais terrível vilão que
fez algo. Algo.

Me juraram, Brasil acima de tudo!
Logo também venderam uma parte para
quem fizesse o maior preço.
Chamaram alguém para me ensinar sobre
o Brasil. Soube que veio de fora.

Falaram que o lema era a verdade.
A verdade nos libertará.
Mas com tanta contradição, aonde está
a verdade?
Talvez a verdade seja a coerência de quem
hoje
teme que amanhã
será preso por falar a verdade.
A verdade nos libertará.

Em espírito, talvez.

Me falaram que não devo temer,
que a democracia é forte.
Me falaram tanta coisa,
que estou já esperando como vão
me enganar dessa vez.


______________ Onishiroi Shonin

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Escrito no asfalto

Eu ando pelas ruas da cidade.
Um guarda-chuva me protege do céu
o asfalto me protege da terra.

Eu ando pelas ruas da cidade.
Couro caro nos pés,
risca de giz em minha roupa.

Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado por seu som morto
de rodas que giram cavalos,
chuva que bate sem poder correr.
Céu cinza chumbo.
Chão cinza escuro.

Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado pelos espíritos que
similar à mim
passam.
Cabeças baixas, expressões severas.
Parecem atentamente buscar
nas pedras portuguesas uma fora de lugar.

As vezes, cruzam comigo o olhar.
Espantam-se, olhos arregalam.
Vêem meu sorriso e sei, no fundo
que se perguntam o que não viram
o que se revelou a mim.

Eu ando pelas ruas da cidade
enxergando poemas escritos
pelas gotas de chuva que caem
no meu rosto cansado,
e feliz.


______________ Onishiroi Shonin