Me falaram que era pela segurança
que quem mata quem mata
não precisa explicar porque mata.
Que eu teria o direito de uma arma
para ser a insegurança
de quem ofende a minha segurança
pois quem atira primeiro é mais
seguro.
Me prometeram lutar contra o inimigo,
o apontaram, o pintaram, o prenderam.
Mas continuam lutando contra o inimigo
que eu não tenho certeza direito do que fez,
nem sei se amanhã serei eu mesmo um,
ou meu próximo, minha próxima,
o mais terrível vilão que
fez algo. Algo.
Me juraram, Brasil acima de tudo!
Logo também venderam uma parte para
quem fizesse o maior preço.
Chamaram alguém para me ensinar sobre
o Brasil. Soube que veio de fora.
Falaram que o lema era a verdade.
A verdade nos libertará.
Mas com tanta contradição, aonde está
a verdade?
Talvez a verdade seja a coerência de quem
hoje
teme que amanhã
será preso por falar a verdade.
A verdade nos libertará.
Em espírito, talvez.
Me falaram que não devo temer,
que a democracia é forte.
Me falaram tanta coisa,
que estou já esperando como vão
me enganar dessa vez.
______________
Onishiroi Shonin
domingo, 25 de novembro de 2018
terça-feira, 20 de novembro de 2018
Escrito no asfalto
Eu ando pelas ruas da cidade.
Um guarda-chuva me protege do céu
o asfalto me protege da terra.
Eu ando pelas ruas da cidade.
Couro caro nos pés,
risca de giz em minha roupa.
Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado por seu som morto
de rodas que giram cavalos,
chuva que bate sem poder correr.
Céu cinza chumbo.
Chão cinza escuro.
Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado pelos espíritos que
similar à mim
passam.
Cabeças baixas, expressões severas.
Parecem atentamente buscar
nas pedras portuguesas uma fora de lugar.
As vezes, cruzam comigo o olhar.
Espantam-se, olhos arregalam.
Vêem meu sorriso e sei, no fundo
que se perguntam o que não viram
o que se revelou a mim.
Eu ando pelas ruas da cidade
enxergando poemas escritos
pelas gotas de chuva que caem
no meu rosto cansado,
e feliz.
______________ Onishiroi Shonin
Um guarda-chuva me protege do céu
o asfalto me protege da terra.
Eu ando pelas ruas da cidade.
Couro caro nos pés,
risca de giz em minha roupa.
Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado por seu som morto
de rodas que giram cavalos,
chuva que bate sem poder correr.
Céu cinza chumbo.
Chão cinza escuro.
Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado pelos espíritos que
similar à mim
passam.
Cabeças baixas, expressões severas.
Parecem atentamente buscar
nas pedras portuguesas uma fora de lugar.
As vezes, cruzam comigo o olhar.
Espantam-se, olhos arregalam.
Vêem meu sorriso e sei, no fundo
que se perguntam o que não viram
o que se revelou a mim.
Eu ando pelas ruas da cidade
enxergando poemas escritos
pelas gotas de chuva que caem
no meu rosto cansado,
e feliz.
______________ Onishiroi Shonin
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
A eleição que nunca acabou
Nem acabará
provavelmente. O que, pasmem, é a melhor notícia desde que ela começou. O
Brasil é um país democrático, sob um modelo de presidencialismo de coalizão.
Calma, sei que não está escrito na nossa constituição a palavra coalizão, mas neste
texto isso não é um palavrão.
Nosso
país não tem tradição democrática. Como resultado, frequentemente nossa noção
de democracia é, no melhor dos casos, vaga. E isso faz todo sentido porque,
além de termos uma democracia jovem, a maioria das relações pessoais não é
democrática. Alguns costumam chamar a democracia de “ditadura da maioria”.
Outros de “governo da maioria”, com quase o mesmo sentido.
Infelizmente,
ambas as definições são imprecisas.
Democracia
é governo do povo. E neste caso, por “povo” entende-se o conceito mais amplo de
povo que possa ser aplicado em uma nação. Isto é, TODO o povo. Um governo ou
ditadura da maioria seria, mal comparando, se Israel com seus 81% hebreus
decidissem que os 19% árabes (censo de 2006) não tem direito a voz ou voto.
Mas, como são democráticos, os árabes (por nota gente, árabe é um grupo étnico,
não uma religião, tá? E, nesse contexto, hebreus também, caso não saibam)
possuem voz, voto, representantes no parlamento (a Joint List, nome da “coligação” dos quatro maiores partidos
representantes dos árabes, possuem 13 das 120 cadeiras no “congresso” deles,
que é unicameral, cerca de 10,3%). Óbvio, a realidade é muito mais complexa e o
povo de Israel não se distingue em A ou B, mas serve para dar um exemplo
simplificado. Muito simplificado. Desculpa qualquer coisa.
Contudo,
novamente, no Brasil costuma-se entender democracia como ditadura da maioria. E
agora cabe descrever porque somos um presidencialismo de coalizão. Nosso
presidente não tem poderes corruptíveis. Ou, melhor dizendo, tem bastante
poder, até corruptível... mas outras instituições possuem bastante poder para
equilibrar. Se um presidente decide passar uma medida provisória sem nenhum
diálogo com o congresso ou com a população, o legislativo simplesmente pode ir
lá e derrubar isso. O presidente também pode tentar vetar algo colocado pelo
congresso. E se os dois ficarem de mau um com o outro, podem passar a vida
inteira um vetando o trabalho do outro e sem ir a lugar nenhum.
Para
trazer para um exemplo próximo da vida (sim, eu adoro exemplos), considere as
relações que costumam haver na sua vida. Se uma pessoa jovem e seus pais
precisam tomar uma decisão conjunta, o peso da vontade dos pais é muito mais
forte, podendo eles simplesmente ignorar a opinião do mais jovem, ou nem mesmo
consulta-lo. Em uma empresa, em uma escola, e na maioria das instituições, o
poder é exercido de forma similar, verticalizada, na qual o topo sempre tem o
poder decisório sem a necessidade de sequer consultar o que há abaixo. E as
pessoas costumam com esse hábito pensar que o governo funciona assim. Mas a
realidade é mais perto do que ocorre quando você e três amigos decidem pedir
uma pizza. Os quatro vão debater sabores, um vai oferecer argumentos para o
outro, algum vai ceder que não tenha o sabor que ele queria em troca de também
não ter Aliche que ele não come (eu conheço uma pessoa cuja pizza favorita é de
Aliche. Me diga se você também tem esse def... peculiaridade). No fim, será
pega uma pizza meio a meio que talvez não deixe ninguém ABSOLUTAMENTE feliz,
mas também não deixe ninguém ABSOLUTAMENTE infeliz.
A pizza
não é escolhida somente com o voto binário de cada um. As opiniões são jogadas
na mesa e trabalhadas. Frequentemente grupos muito heterogêneos demoram horas
para pedir uma pizza, grupos mais afinados o fazem com uma agilidade invejável.
E o presidencialismo de coalizão é mais similar a isso.
O
presidente não pode forçar a mão e fazer o que quer. Mesmo quando se tem uma
aparente “maioria” da câmara, essa maioria significa 42 senadores e 257
deputados (para maioria simples). Ou seja, mesmo que você tenha na composição
desse número seus 299 melhores amigos, deve ser difícil pedir uma pizza... e
tem que lembrar que a outra metade também vai pagar pela pizza e, graças a
questões maravilhosas como quórum mínimo, mesmo a minoria, se decidir bater o
pé, consegue tornar o governo um inferno (é tipo quando tem aquela pessoa que
bate o pé e diz que se vier uma pizza com camarão mesmo em uma fatia ele não
vai pagar porque é alérgico. Super apoio essa opção, eu não gosto de camarão).
Assim, o
presidente, para governar, é obrigado indiretamente a formar coalizões, grupos
que consigam chegar em consenso. Esse consenso normalmente tende a ser algo que
não era aquilo que a maioria queria, porque teve que conceder algo para a
minoria, nem o que a minoria queria, porque acaba tendo que aceitar algo da
maioria e, sim, a maioria fica com mais força para trazer esse meio termo mais
na sua direção. Mas daí a atropelar a minoria como se não tivesse voz,
simplesmente não consegue.
E nisso
eu chego ao futuro presidente. Eleito com 55% dos votos válidos (não vou entrar
no mérito de quantos isso realmente são de população e tal, a discussão sobre a
presença nos votos e tal fica para um outro texto), já nasce em uma população
dividida. Adicionalmente, apesar de, como muitos estão falando, ter na mesma
eleição uma inclusão de vários membros do seu partido e outros aliados na
câmara, não tem nisso, ainda, uma representação realmente forte. Muitos membros
eleitos e/ou aliados são pessoas que chegaram no partido na última hora, ou
aliados declarados de última hora. E você pode ter tido uma conexão muito legal
com aquela pessoa nova, mas só vai saber mesmo quando fizerem o teste de rachar
a conta do bar.
E nisto,
fico feliz pela eleição ainda ser um tópico de debate. Feliz porque, como um
país de pouca tradição democrática, o povo frequentemente esquece que também
faz parte do governo. Como somos nós que pagamos a pizza, mesmo quando não
estamos lá dando o voto do “sim/não” no sabor dela, quando fazemos barulho
contra ou a favor de algo, os votados são obrigados a lembrar que se irritarem
suficientemente a população simplesmente não estarão lá dentro na próxima
rodada. Isso foi algo interessante da eleição recente em que muitos membros do
legislativo não conseguiram reeleição, que antes era algo bem normal. Mostra
uma parte da evolução da memória, e da relevância de colocar o debate em voz
alta. Esse mesmo som ajuda a alterar detalhes numa dita legislação antes do
voto definitivo, ou mesmo sua aprovação.
A continuidade
do debate, seja você de direita ou de esquerda (nota mental, também preciso
falar sobre isso um dia) é um bom sinal, de que política pode vir a se tornar
uma parte da conversa do dia a dia fora das eleições e ser removida do rol de
coisas que não se debate, com o qual nunca concordei mesmo (filósofos não
perdem uma oportunidade de discutir política ou religião. E futebol é
política). Claro, como todo parto, todo início, o momento atual é difícil. O
debate ainda parece mais discussão e menos desenvolvimento de ideias, enquanto
ainda há muita gente querendo provar estar certa ou errada, ignorando que o
mundo não é binário. Mas é um começo. A oposição tem voz sim, e tem que ter, e
a posição tem que ouvir sim, e negociar sim. Para isso, é importante que todos
participem de forma propositiva, e não simplesmente fincando o pé. Se tiver uma
opinião, fale, seja ouvido, e ouça de volta. Talvez assim, daqui a dois anos,
no próximo pleito, as pessoas estejam mais treinadas no diálogo político e
tenhamos uma eleição mais saudável e menos... seja lá que nome damos para o que
aconteceu nas últimas semanas.
______________ Onishiroi Shonin
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
Star wars Rogue one – Review (SEM spoilers)
Star Wars Rogue One talvez seja
o filme que você sempre quis ver em star wars, ou talvez seja o exato oposto. É
um grande filme, sim. Não o melhor filme, embora tenha seus momentos.
Definitivamente um filme que vale a pena ser visto, seja você fã da saga ou
não. Contudo, talvez pela abordagem mais séria ou por sua história bem distinta
das quais já estamos acostumados, ele não atinja todos da mesma forma. É
importante que fique claro: Rogue One é uma história diferente de todas as outras já contadas.
Todos que já viram os filmes
originais de star wars sabem que a estrela da morte existe, e que é destruída
graças a um ousado plano de ataque rebelde, que só pode ser realizado graças a
vários “Bothan spies” que morreram para conseguir os planos da base. Bem,
talvez este seja o primeiro ponto que me incomodou no filme. Acredito não ter
visto nenhum Bothan. Mas eu divago. Rogue One acerta em vários outros pontos,
efetivamente corrigindo o que muitos sempre consideraram falhas no Uma nova
esperança. Explica-se o porque do ponto fraco da estrela da morte, entre vários
outros pontos interessantes. Mas essa é a parte do filme que você já sabe que
vai encontrar antes mesmo de sair de casa para ir ao cinema.
A parte realmente excelente de
Rogue One é mostrar a aliança rebelde de uma forma que até então não havíamos
visto. Uma aliança conturbada e suja, com personagens que discordam entre si,
com métodos diversos. E, principalmente, com um histórico tão tenebroso como...
bem, como rebeldes costumam ser. Afinal, o império os denominou terroristas,
dos tais que justificassem a construção de tal poderosa arma. E neste filme
vemos um pouco disso. Homens e mulheres dispostos a realizar atos não tão
heróicos para o objetivo de vitória da rebelião. Mais que isso, Rogue One tem a
liberdade de mostrar um lado que não tivemos acesso da galáxia. O lado no qual
os rebeldes e o império lutam de verdade, com baixas em ambos os lados (e
stormtroopers que acertam até com certa regularidade). Ah, e eles acertaram as
joelheiras dos stormtroopers.
Uma questão gerada por esta
abordagem é que este filme é definitivamente mais pesado que os outros até
então. Mesmo com as eventuais brincadeiras e alívios cômicos, o filme é tenso.
O conflito é uma constante, blasters parecem soar por quase todo o filme e, de
forma geral, sente-se uma tensão que não havia nos filmes anteriores. Um enorme
feito, uma vez que já sabemos o final desta história quando ela começa.
Se o clima do filme é seu ponto
alto (para quem estava como eu ansioso para assistir esse lado da história), a
execução me deixou alguns desagrados. A velocidade e o conflito constante torna
difícil sintonizar com e entender bem as personalidades envolvidas. A maioria
dos personagens principais até descreve relativamente bem suas motivações, mas isso
ocorre de forma meio forçada e mecânica, sem grandes momentos de interação
calma e pacífica para vermos sua sintonia, como ocorre por exemplo em guardiões
da galáxia. Por estarem quase sempre em uma situação extrema, vemos mais a
forma como eles resolvem seus problemas do que a razão de serem da forma que
são, e assim é difícil efetivamente importar-se com o que vai ou não ocorrer
com cada um. O fato de estarem em uma situação que envolve muitos extras ao seu
redor também ajuda em impedir essa sintonia, pois sempre existe algo mais
ocupando nossa atenção e impedindo de focar em um ou outro personagem.
Aliás, falando em focar. Como
habitual, o 3D, pelo menos o padrão, é péssimo. Não posso falar pelo real 3D ou
pelo IMAX, mas se for escolher, prefira a película convencional. Apenas serviu
para tornar o foco pior, como normalmente ocorre em filmes que não foram 100%
focados no efeito 3D.
As atuações são “ok”. Alguns
atores são excepcionais, outros nem tanto. Não tivemos desta vez uma atuação
absurdamente incrível como a de Boyega, mas tivemos uma média bem boa. A
personagem principal deixou um pouco a desejar na minha opinião, ao menos nos
momentos de maior emoção. Alguns outros personagens (inclusive o dróide) por
vezes roubavam a cena dela, mas isso pode ser tolerado.
Como ocorreu com o último filme,
Rogue One consegue ter um elenco sem cor definida, com caucasianos, mestiços,
asiáticos e negros espalhados de forma que qualquer um que diga que o filme tem
“cotista” está precisando rever seus conceitos. Também existe uma prolixidade
de sotaques, extremamente válida para um grupo tão diverso.
O filme encaixa vários cameos ao
longo da história, muitos deles bem colocados. Assim como no filme do ano
passado, quem está ciente dos outros enxergará um fan service, e quem não viu
nenhum filme não os estranhará como cenas excessivamente forçadas (ao menos,
não em sua maioria). Como todos já viram no trailer, sim Darth Vader aparece e
sim, ele é foda nesse filme.
Aliás, muito foda. Talvez a
melhor cena dele em toda a história esteja nesse filme. Isso vocês me dizem
depois quando spoilers forem permitidos.
Os efeitos são limpos e bem feitos,
sem nada muito forçado. É especialmente digno de nota que alguns personagens
foram feitos inteiramente por CGI uma vez que envolvem pessoas que aparecem no
IV e ou estão em outro plano de existência ou não possuem mais a mesma
aparência da época, e estes efeitos foram feitos com qualidade que creio que
uma pessoa não obcecada por efeitos e que não saiba de antemão quem foi feito
desta forma não perceba. Apesar de que, obviamente, a “atuação” destes
personagens é de longe “inferior” a média do filme.
O filme também é rico em pequenos
detalhes, que podem passar despercebidos. Vários momentos envolvem reações
sutis que fazem sentido se estiver prestando atenção, e eles tornam muitas
cenas mais interessantes e críveis. Esteja atento.
Agora, tomando por outro ponto,
Rogue One tem uma grande vantagem. Não é somente um filme de star wars. É um
filme de guerra. Nesta linha, Rogue One não deixa nada a dever para o típico
exemplar da espécie. Isto considerado, também possui cenas de ação extremamente
bem feitas, sem o uso de movimento rápido de câmera para realizar a ação. As
cenas são bem feitas, em sua maioria
críveis e adequadas. Qualquer fã de ação ou de filmes de guerra
convencional se sentirá a vontade com este filme, assim como o típico fã de
star wars. O mais interessante, contudo, é sua conclusão diretamente conectada
ao filme IV. Bem verdade, se o filme não exibisse os créditos e continuasse
diretamente no IV poderia enganar alguém como um único filme... bem, salvo a
qualidade de imagem, claro. Para quem NUNCA viu nenhum star wars, eu
recomendaria agora começar por este, que torna a história de Uma nova esperança
mais... tangível.
Por fim, na lista de efeitos
sonoros... bem, não acho que vá ganhar um Oscar neste quesito. A trilha sonora
original é interessante, mas não possui o tom épico esperado. Claro que
competir com Jhon Willians é complexo mas... a trilha sonora tenta aproximar-se
da original o bastante para incomodar. Por vezes escuta-se um arranjo que
remete a alguma música antiga e então percebe-se a diferença. Sinto que seria
melhor ter algo completamente original ou algo completamente igual. Tentar ter
a referência sonora do original talvez tenha sido um erro.
Como recomendação geral? Veja o
filme. Se ele não é tão grandioso quanto foi o Despertar da Força, é muito mais
crível que este. Considerando minha irritação com a quantidade de momentos em
que a barra foi forçada no filme VII, Rogue One é um agradável alívio em um
filme que em sua grande maior parte faz sentido. Um bom filme, digno de ser visto
no cinema, mas não um magnífico filme para fazer as pessoas chorarem de
saudade.
Ja-ne. Nenhum espião bothiano
foi ferido neste review.
______________ Onishiroi Shonin
sábado, 25 de junho de 2016
Troopers da morte – Resenha
Recentemente
(tipo, ante-ontem) acabei de ler o livro Troopers da morte. Um livro da série
legends no cenário de Star Wars. Para quem não sabe, a designação “legends”
informa um livro ou conteúdo no cenário de Star Wars que não faz parte da
história “oficial”, também chamada de cânone. O livro tem a assinatura de Joe
Schreiber, autor habitual de livros de horror. Este é meu primeiro livro do
autor, então não tenho uma referência para compará-lo aos outros livros do próprio.
Contudo, é longe de ser meu primeiro livro de terror ou primeiro legends de
Star Wars. Li o livro em sua versão impressa, na língua portuguesa, tradução de
Caio Pereira e publicado pela editora Aleph. Enfim, ao livro. Não fornecerei
nenhum spoiler, quase tudo aqui está na sinopse, salvo alguns poucos detalhes que
não são impeditivos da apreciação da trama.
Primeiro é
preciso comentar a qualidade da impressão. Nisto a editora Aleph nunca me
decepciona. O livro é impresso em papel de qualidade (Polen Bold 70g), sem nenhuma falha na
diagramação. Neste, como em todos os livros da editora que li até o presente
momento, não identifiquei nenhum erro de ortografia ou falha no alinhamento dos
parágrafos ou outro tipo de erro na revisão, assim como nenhuma folha
danificada ou erros de impressão. Adicionalmente, a arte de capa do livro é
sensacional. Internamente o livro possui alguns pequenos detalhes
significativos, como a imagem utilizada para cada novo capítulo. Apesar de ser
sempre a mesma imagem, adiciona um toque interessante ao efeito do livro. Por
fim, o livro vem com o próprio marca páginas, um pequeno sabre de luz de papel.
Vamos então falar
da história em si. A sinopse do livro deixa claro sua proposta. É uma história
de zumbis no universo de Star Wars, que ocorre durante a existência do império,
antes dos eventos de uma nova esperança. Uma nave prisão quebra no meio de uma
viagem até um planeta prisão, encontra um cruzador imperial abandonado e um
grupo vai investigá-lo procurando partes para o concerto da nave. No meio do
processo um vírus se espalha e pessoas começam a passar mal. O tipo de zumbi
utilizado no livro – que mundo vivemos em que podemos até classificar tipos de
zumbis e infecção original – é do vírus que se espalha pelo ar, mata e
transforma em zumbi. Nisso entra o primeiro momento complicado do livro, no
qual os personagens principais são simplesmente imunes a infecção via aérea
por... porque sim. Ok, se o autor escolhe esse tipo de infecção ele meio que
fica obrigado a utilizar esse recurso, mas não deixa de ser uma situação
forçada. Que seja. O livro evolui relativamente bem no início, com bastante
trabalho na tensão. Contudo, em um indeterminado ponto no meio do livro as
coisas se aceleram e ficam mais distantes do conceito de horror e mais próximas
de um livro de ação. As coisas ficam “claras” muito rápido, de forma que é
difícil ser impactado pelo horror do livro. Em algum lugar isso se perde e,
embora eu possa reconhecer que os PERSONAGENS estão com medo, eu mesmo não
senti nenhum incômodo. Talvez as minhas referências em Edgar Allan Poe e
Stephen King tenham me imunizado de livros do gênero, mas o típico suspense e
nervoso que tenho ao ler um livro desses autores não foi sentido nesta obra de
Joe Schreiber. Como disse, por ser a primeira obra dele que leio, não posso
dizer se chega a ser uma falha do autor, pois o universo utilizado talvez seja
pouco propenso ao gênero. Contudo, houve algumas escolhas do autor que eu
considero que poderiam ser mais eficientes para o tema. Um é o uso dos
zumbis “modo horda” ao invés de isolados. Regra geral, um monstro dá medo. 30.500
monstros, não. Eles se tornam comuns, e eu eventualmente não via mais problema em ter um mar de zumbis constante seguindo alguém. Segundo ponto que não gostei foi a
introdução de alguns personagens famosos de star wars. Por mais que seja um
elemento... interessante, é difícil inserir os personagens escolhidos no
contexto do medo. Entre outros, você sabe que estes personagens são imortais, a
prova de blasters e não sofrerão sequer um arranhão que poderia deixar uma
cicatriz neles, o que impede a imersão. Por fim, a história tem uma série de
elementos “Ex Machina”. Inúmeras vezes, entre os mais de 30.000 zumbis –
considerando a tripulação de um cruzador imperial – aparece justamente o que
tinha um contexto com os sobreviventes antes da infecção. E em algumas
situações isso é simplesmente feito de formas impossíveis. Muito impossíveis.
Absolutamente impossíveis. E isso gera descrença que, mais uma vez, afasta o
medo.
Apesar disso,
removido a consideração de “livro de horror”, e considerando um livro de ação,
a história chega a ser bem interessante, com momentos bem emocionantes. Os
personagens são bons e evoluem bem, apesar de um deles ter uma evolução muito
rápida no meu gosto. A maior parte das decisões feitas pelos personagens é
condizente com suas personalidades e críveis para as situações, mesmo
considerando os momentos ex machina. Lendo sob esta ótica o livro é bom. Não
sensacional, mas bom o suficiente para proporcionar um tempo agradável, com
alguns momentos muito bons, mesmo que não o suficiente para tornar o livro um
espécime singular.
A conclusão do
livro, talvez, seja o ponto que força ele para o campo do regular. Como ocorre
com muita freqüência, após construir uma trama tensa e com muitos nós, a
solução final é meio “simples”, como se o autor percebesse que alcançou a
quantidade de páginas pretendida e simplesmente precisasse encerrar em três capítulos
do jeito que fosse. Mesmo assim, o final é bem interessante e satisfatório. O
epílogo, em bem verdade, foi um dos meus momentos favoritos no livro, digno de
uma história épica, o que aumentou um pouco minha consideração.
Concluindo,
Troopers da morte é um livro bom, apesar de falhar na proposta de gênero
original. Recomendaria principalmente para quem gosta de livros de ação. Eu
daria uma nota de 6/10 para o livro, bom o suficiente, mas não espetacular.
Compre em uma promoção e valerá a pena, mas não precisa correr para fazê-lo.
Ja-ne. Até a semana que vem devo acabar a leitura de outro livro, a Lenda de Ruff Ghanor, e informo o resultado.
______________
Onishiroi Shonin
terça-feira, 7 de junho de 2016
Um poema rápido
Deixe-me contar uma coisa rápida.
Tem que ser rápido, muito, muito
rápido. Porque nesse momento
bem ali perto, talvez,
uma pessoa lamuria-se numa mesa de bar
alguém encontra o amor da sua vida
e outra perde definitivamente o seu.
Alguém certamente chora esse momento
ou apenas talvez penteie o cabelo.
Pelo menos para alguém, sei
este momento é e foi
o momento mais importante
de toda sua vida.
Era só isso.
______________
Onishiroi Shonin
Tem que ser rápido, muito, muito
rápido. Porque nesse momento
bem ali perto, talvez,
uma pessoa lamuria-se numa mesa de bar
alguém encontra o amor da sua vida
e outra perde definitivamente o seu.
Alguém certamente chora esse momento
ou apenas talvez penteie o cabelo.
Pelo menos para alguém, sei
este momento é e foi
o momento mais importante
de toda sua vida.
Era só isso.
______________
Onishiroi Shonin
segunda-feira, 9 de maio de 2016
BIRDEMIC!!!
Como falar de certas coisas? Quando eu vi The Room eu pensei, após
o filme, longamente, sobre como o que foi visto não pode ser desvisto. E, The
Room foi uma das poucas coisas na vida que me deu essa vontade. É um filme que
meio que tira sua fé na humanidade, que dá um vazio no coração e uma dor. Faz
você perguntar o que está fazendo com sua vida para ver um filme desses.
Aí eu vi Birdemic. Em uns cinco
minutos de filme já estava querendo ver The Room novamente. Sei lá, umas oito
vezes, fácil.
Birdemic tem todas as coisas ruins que um filme poderia ter
se tentasse. Eu vi peças escolares em que todos os atores estiveram obrigados a
participar que tinha melhor interpretação. Além de que... bem, vamos por
partes.
A primeira coisa notável do filme é que não existia um cameraman.
Aparentemente o diretor aprendeu o botão que ligava a câmera e considerou
suficiente. Isso porque existe falha de foco, a gravação se move quando não
precisa e fica fixa quando poderia se mover e... bem, não existe enquadramento.
A segunda coisa notável é meio que um colateral disso. Não existem microfones.
O fone utilizado é o da câmera. Com a captação de todo o ruído da cena, pois
não havia isolamento. E isso gera situações que dão a mesma sensação de quando
alguém arranha o quadro negro. De novo. E de novo. Porque toda vez que a câmera
muda, você SENTE o áudio no fundo mudando. E, claro que um filme sem cameraman
e sem microfones não tinha um técnico de edição. Então muitos diálogos ocorrem
assim:
*câmera fica na direção de um personagem. Ruído 1 no fundo*
*passam três segundos*
*personagem fala uma frase, talvez inaudível por causa do
ruído. A câmera balançando faz uma parte ficar mais alta que a outra*
*passam mais dois segundos*
*câmera muda de personagem, com um audível CLIQUE da
transição de ruído de fundo, e você passa a escutar um ruído de fundo
completamente diferente*
*passam mais três segundos*
*personagem subitamente sorri, faz ha... ha... e fala uma
frase, ininteligível*
*mais três segundos*
Praticamente todas as linhas são assim. Mas os diálogos não
são o importante, porque 60% do tempo do filme é... um carro andando. Não, não
aquela cena acelerada dos carros passando para dizer que o tempo passou. Um
carro andando. Existe uma parte na qual o personagem principal (definido como
referência somente porque o carro não candidatou-se) sai de casa. Vai até o
carro. Desliga o alarme. Abre a porta. Entra no carro. Fecha a porta. Liga o
carro. Engata a marcha. Manobra para a rua. Dirige pela rua. Faz uma curva.
Anda por um tempo. Para em um posto. Abastece o carro (com uma pausa da câmera
no preço da gasolina por uns 20 segundos). Volta a dirigir. Anda mais um pouco.
Mais um pouquinho. LIGA A SETA (quando você viu um carro ligar a seta EM UM
FILME!!??). Faz outra curva. Anda mais um pouquinho. Para. Desliga o carro.
Abre a porta. Sai do carro. Fecha a porta.
Caso tenha parecido muito devagar e pausado... é porque é
mesmo. Este personagem parece o robocop após um acidente grave fazendo
fisioterapia. A fisioterapia é apenas um paliativo contudo, ele não tem cura
mas dizem para ele que ele tem e então ele acredita.
O autor diz que o filme é um Romantic Thriler. Não só é
nesta ordem como a definição de romantismo dele vem de uma mistura de filme
pornô (sem o sexo) junto com lendas urbanas de ladrões de rim. Quando o
personagem principal aborda a sua contraparte romântica do filme pela primeira
vez, além de contracenar com a melhor atriz do filme (entre outros porque logo
percebeu que o que estava fazendo era absurdamente ruim e passou a se divertir
com isso), LITERALMENTE parece um filme pornô ruim sobre ladrões de rim. Até as
partes que não são dele interagindo com ela parecem tiradas de um daqueles
livros de literatura erótica que vende nas bancas de jornal, sem o erotismo
(incluindo o amigo do personagem principal que quando ouve que ele está saindo
com uma garota mas ainda estão "somente se conhecendo" utiliza a
épica frase "Um dia
sem sexo é um dia perdido").
Um outro ponto muito complexo do filme é o tempo. Não existe
marcação clara de passagem do tempo. O que vemos é que o personagem principal
conhece a menina, depois trabalha e faz um super negócio no trabalho. Algumas
cenas depois a empresa é vendida por um bilhão de dólares (sim, um bilhão, com
b) e, como acionista, ele ganha uma participação desconhecida. Logo depois ele
aparece vendo TV em casa, e em todas as vezes que a TV aparece é para um
noticiário (não vou comentar a qualidade desses noticiários, faltam-me palavras
para isso, e eu lia dicionários para passar o tempo) falando de desgraças por
causa do aquecimento global. Logo depois ele compra um painel solar para sua
casa. Na cena seguinte ele tem uma startup que tem uma tecnologia incrível para
fazer painéis solares que custam 20 vezes menos do que o que ele acabou de
comprar, e convence investidores a injetar 10 milhões de dólares na startup
(lembrando que logo antes ele recebeu uma parte não discriminada de 1 bilhão).
E ainda logo depois ele está conversando com Nathalie, a sua contraparte no
Romantic do filme, falando que a conheceu há apenas uma semana.
Resumindo:
Em SETE dias esse cara:
Fez o melhor negócio da sua vida na empresa.
A empresa foi vendida por um bi.
Criou uma consciência ecológica vendo tv.
Comprou um painel solar de US$ 19.000,00 (ele consegue um desconto
de 1k)
Monta uma startup para fabricar painéis solares.
Desenvolve uma tecnologia 20 vezes mais eficiente que os
painéis solares do mercado.
Consegue um venture para sua startup de 10 milhões.
Conhece
a mãe da sua namorada (nem citei isso, porque a mãe consegue ser pior atriz
do que os carros. Aliás, o link nesse caso foi comentado).
Não faz sexo, nem rouba rins. Got me.
O filme tem também no meio disso um encontro duplo (porque
calha da melhor amiga da garota ser namorada do melhor amigo do herói, o Sr.
dia sem sexo = dia perdido... aliás, essa dupla é um copy-paste de Jhon Lennon
e Yoko, pois a garota é oriental e eles adoram falar de paz e de sexo,
incluindo uma cena de... a gente finge que é sexo, mas... não. Enfim. Em uma
cena dessas a câmera fica trinta segundos olhando um cartaz escrito IMAGINE
PEACE. Cheguei até a achar que era o nome de uma empresa, sei lá), uma cena de
"dança" de três minutos (não entende o que tem de errado? Lembra
quando falei da performance do personagem principal, robocop, fisioterapia?
Consegue imaginar isso dançando? Nem ele, que ficava tentando virar a cara para
a câmera não velo, e fazia o proverbial "nada estalando os dedos".
Ouvindo uma música que deveria tocar na prisão como tortura
e todos teriam medo de serem presos para sempre)... um comentário sobre um
filme que só eles viram que cria consciência ecológica, um show de abóboras
e... outras coisas do gênero.
Então, subitamente, o casal principal decide que é hora de
conhecerem-se biblicamente. E apesar de ambos serem pessoas solteiras, com suas
próprias belas e grandes casas, decidem fazer isso em um motel digno dos filmes
de Hitchcock. Nessa hora eu pensei que finalmente ia rolar a cena de roubo de
rim que o início prenunciou. Mas ocorre só uma cena de "vamos fingir que é
uma cena de sexo". Provavelmente esta cena é utilizada no treinamento de
padres para estimular o
celibatismo. E aí...
A cena seguinte mostra a cidade do alto, com várias...
águias ou algo assim, eles foram feitos com efeitos especiais que... bem,
lembram os patos de duckhunt. Fazem um som parecido também. ENFIM, a cena
mostra esses bichos voando de um lado para o outro e... de repente um deles se
lança para o chão (com um VROOOOOOMMM que lembra os aviões em jogos de Atari) e
EXPLODE! FUCKING
KAMIKAZIS-EXPLODING-EAGLES(thingies)!!! DEER LORD!
Após várias explosões com efeitos èspécïâís, os personagens
acordam com uma águia bicando a janela (elas perdem a capacidade de explodir
perto dos personagens principais). Os personagens, após evitarem a entrada da
águia barricando a porta com a cama, decidem... sair. Afinal, não está seguro
ali dentro. E a bateria do celular deles acabou e não podem pedir ajuda. Mas,
claro, o personagem principal não consegue encontrar as chaves do carro, de
forma que ele bate na porta de um vizinho. Vizinho de quarto de Motel. Um casal
de vizinhos que não é o casal de amigos deles. E que convenientemente possuem
uma van com cara de pertencer ao século anterior ao passado. E que também acham
que é uma boa idéia sair daquele lugar seguro. E que, para evitar as águias no
caminho até o carro decidem que precisam de armas. E então armam-se com
cabides.
Eles ficam balançando cabides no ar, contra águias mal
feitas que eles não conseguem ver (isso nunca foi tão notável) até o carro e
então saem dirigindo. Frequentemente com as janelas abertas porque as águias
não gostam de atacar vans. Ah sim, eu não falei que dentro da Van desse cara
tinha um fuzil e uma pistola, além de aparentemente balas suficientes para o
apocalipse zumbi né? É um filme americano, claro que eles andam com armas
automáticas nas suas vans. O indivíduo também é um ex soldado que lutou no Iraque
e cansou-se de toda a matança, para o filme ter outra chance de falar de paz e
alguém usar a frase “Why don’t we give peace a chance?”. No meio do apocalipse.
Claro.
Daí em diante... como disse, é um Romantic Thriller, nessa
ordem. Então o Romantic acabou, porque já, supostamente, houve sexo, e ocorre
apenas Thriller. A definição de Thriller do autor do filme envolve:
- Carros dirigindo bem devagar. Frequentemente por estradas
que eles não podiam bloquear para filmar um filme Z então outros carros ficavam
passando ao lado normalmente.
- Paradas para reabastecer e pegar lanches em lojas de
conveniência. Não, nunca pensam em estocar suprimentos porque o apocalipse zumbi
pássaro está acontecendo, eles só param quando ficam com fome mesmo.
- Cenas dos dois homens atirando para cima e de pássaros
morrendo as dúzias. Realmente acho que eles roubaram as cenas dos pássaros
morrendo direto de Duck
Hunt.
- Picnic ao ar livre. Sim, durante o apocalipse pássaro.
Não, eles nunca vão para casa. Nem pensam em ver a mãe da personagem principal.
- Uma conversa com um cientista que sabe que o aquecimento
global fez os pássaros ficarem com gripe aviária, mas não faz idéia de porque
eles ficaram violentos. Mas também sabe que evidências indicam que isso já
aconteceu na era dos homens das cavernas e os pássaros arrancavam os olhos das
pessoas, as vezes deixando-as feridas e voltando para matá-las apenas depois.
No filme elas só matam mesmo.
- Crianças comendo doces.
- Carros andando.
- Abastecer o carro.
ANNNNND, that’s pretty much it. THRILLING. Após algum tempo
pessoas morrem, uma atacada por um pássaro enquanto... bem, decide sair da Van
para cagar. Não pode ser utilizados outros termos uma vez que o diálogo que
transcorre é:
Nem as pornôs
chanchadas brasileiras (cenas fortes) conseguem vencer esse diálogo! Algum
tempo depois, em outra morte, descobrimos que os pássaros tem a capacidade de
CUSPIR ÁCIDO (ou ao menos é o que eu e muitos outros acreditam. Apenas olhando
a cena não sei se foi isso ou alguém decidiu jogar um balde de molho de
galinha nas pessoas de repente). Mas sem problemas, eles nunca mais fazem
isso. Tem também uma pausa numa floresta aonde encontramos um hippie protetor
das árvores, com mais um discurso de como o aquecimento global está acabando
com o mundo. Mas somos interrompidos pelo rugido de um leão da montanha (!), e
na fuga a floresta começa a pegar fogo (!!) em vários lugares ao mesmo tempo
(!!!), totalmente em efeitos especiais (!!!!).
Mas e aí? Bem... para o clímax do filme... as águias vão
embora. Assim, simplesmente. Elas chegam a um consenso “Ei, acho que eles já
entenderam o recado. E esses caras são legais, ele acredita em energia verde.
Vamos migrar?” e vão embora. Ao fim, a cena dos sobreviventes na praia olhando
o mar durante quatro minutos quando passam os créditos chega a ser um alívio.
Ainda me espanto mais ao perceber que, apesar de menos qualidade que as fitas
de meu aniversário de seis anos, o filme é de 2010 (e, sim, eu já não tenho
seis anos faz muito tempo). Digo mais.
Existe um Birdemic 2. Se eu não voltar em duas horas, a
sequência derreteu meu cérebro. Ja-ne folks.
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Onishiroi Shonin
terça-feira, 26 de abril de 2016
Horas ordinárias
Eu amo os números e estatísticas
nos quais me regalo pelas notícias
todos os úteis de minha vida dias.
Tenho prazer em manipular palavras,
como um senhor do universo, usá-las.
Dentro do meu terno e sua risca de giz
contudo, permaneço absolutamente infeliz.
Porque eu chego em casa ao fim
e não encontro você, simples assim.
______________
Onishiroi Shonin
nos quais me regalo pelas notícias
todos os úteis de minha vida dias.
Tenho prazer em manipular palavras,
como um senhor do universo, usá-las.
Dentro do meu terno e sua risca de giz
contudo, permaneço absolutamente infeliz.
Porque eu chego em casa ao fim
e não encontro você, simples assim.
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Onishiroi Shonin
segunda-feira, 18 de abril de 2016
Você elegeu o impeachment
Hoje eu quero falar com você sobre
uma coisa séria. Você talvez esteja comemorando a votação dos deputados. Talvez
você esteja revoltado. Talvez você decida ignorar. Talvez você proteste dizendo
que 513 deputados não podem tomar decisão por 190 milhões de brasileiros. Pois
bem. Eu queria dizer que o que aconteceu na câmara este domingo é exatamente o
resultado do seu voto. E do meu. E também do voto de quem não votou. Não está
fazendo sentido? Eu entendo, é por isso que escrevo muito. Gosto de detalhar
tudo. Então vamos explicar.
É necessário entender um pouco da
estrutura política do nosso país, algo que, assustadoramente, é ignorado pela
maioria absoluta da população. Eu mesmo não sei tanto assim, apenas sei o
bastante. Nosso governo é um sistema montado por um povo que saiu de uma
opressora e absolutista ditadura. E por causa disso, é um sistema que dá amplos
poderes a vários poderes para poderem restringir os outros poderes (bizarro
né?). A idéia final é: Ninguém consegue guiar o país para lado nenhum sozinho,
não importa aonde esteja. Algumas posições tem uma autonomia relativamente
maior, como os prefeitos. Mas o/a presidente? Quase toda proposta dele/a
precisa ser aprovada pelos deputados. Ele/a pode usar artifícios para impor sua
vontade, como as medidas provisórias. Contudo, elas podem igualmente ser
vetadas pelo congresso. Além disso, muitas votações do congresso funcionam pelo
sistema de maioria absoluta, ao invés de maioria simples. Isso significa que
muita coisa precisa de 2/3 dos deputados para ser aprovada, ao invés de somente
metade. Assim, negar algo é muito mais fácil do que fazer algo. Claro, a
presidência tem alguns poderes diretos, como a indicação dos ministros, que
possuem poderes significativos, e outros cargos relevantes. Contudo, o ponto
importante é: Sozinho/a, um presidente/a não consegue fazer NADA.
Em função disso, junto com a
existência de 35 partidos ativos (e mais 20 querendo existir), a única forma da
máquina política funcionar é com a câmara, o senado e o/a presidente entrando
em algum nível de consenso. Se um grupo de deputados decidir que um presidente
não governará, mesmo que eles não sejam a maioria, eles conseguirão, porque
meramente por votarem contra conseguem impedir a maioria absoluta. Em um
cenário IDEAL isso significa que as eventuais propostas caminharão para um meio
termo. No cenário NÃO IDEAL, significa que um grupo disposto consegue quizumbar
a porra toda.
As vezes é difícil saber a
diferença, quando o povo elege o Tiririca.
Aham. Esse processo de consenso
manifesta-se já nas eleições. Dois partidos grandes preferem aliar-se a
brigarem, porque não só possuem mais condições de ganhar uma eleição com seus
votos combinados, como também conseguem direcionar o governo para algo no meio
termo do que ambos acreditem. Separados, não poderão nem elegerem-se, nem
governar. Assim, vemos as chapas sensacionais nas eleições que combinam alguns
partidos grandes e uma dúzia de pequenos cada. Quando então votamos no
candidato dessa chapa, votamos não só numa pessoa ou num partido, mas em toda a
coligação envolvida.
Acompanhou até aqui? Ótimo. Agora
vamos falar de uns números, ok?
Um argumento que tem sido muito
usado é que o PT foi o partido que chegou ao poder na figura do presidente, e
que o PMDB, seu ex-aliado, nunca teria sido capaz de chegar lá. Pois bem, vamos
considerar o seguinte. No presente momento, existe na câmara dos deputados 70 membros
do PT (Lula), 66 do PMDB (Temer) e 54 do PSDB (Aécio), sendo estas as três
maiores bancadas (a quarta, PSD, já tem “somente” 36 cadeiras). Essa
aproximação dos números deixa bem claro que:
1) O
PMDB possui uma participação expressiva, logo, recebeu votos de forma
expressiva.
2) A
divisão partidária na última eleição foi enorme. Essencialmente, quaisquer dois
desses três partidos que decida quizumbar tem como impedir completamente o
governo de fazer qualquer coisa.
Segundo ponto sobre a “votabilidade”
do partido Temer. Uma forma interessante de saber quantos votos um partido tem
é simplesmente ver quantos afiliados ele possui. Afinal, quanto mais engajamento
direto um partido consegue atrair, maior é, por extensão, o alcance popular que
ele tem. O Brasil tem 6 partidos com um número de filiados entre 1 milhão e um
milhão e meio. O PT possui 1.588.528 filiados. O PSDB, quarto em número de
filiados, tem pouco mais de um milhão e quatrocentos mil filiados, pouca
diferença. Contudo, o primeiro lugar é do PMDB com 2.374.909. Uma larga
vantagem.
Terceiro ponto. Já podemos assumir
que o PMDB possui um forte cabo eleitoral. Contudo, não lançou um presidente,
ao invés disso, apoiou o candidato PT, em uma chapa cujo nome já esqueci, e em
troca disso ficou com a vice-presidência. Se por um lado eles não conseguiriam
eleger sozinhos um presidente, o PT igualmente não conseguiria sozinho. Embora
não haja uma forma de levantar uma estatística precisa que permita dizer
quantos eleitores da Dilma eram PMDebistas, levando em conta os dados acima, e
a incrível proximidade que os candidatos finais ficaram na eleição
presidencial, podemos concluir que o apoio deles definitivamente elegeu o PT.
Contudo, alguma coisa aconteceu,
eles brigaram, e a coisa desandou. E aí começa a ficar complicado. Mais
complicado. Isso porque, como falei, a eleição foi extremamente apertada. Razão
pela qual a câmara possui três poderes com números tão próximos. Para o governo
ocorrer é preciso que dois desses três poderes entrem em consenso e ainda
consigam convencer uma boa parte dos outros partidos com pequenas participações
a segui-los. E como são MUITOS partidos, fica mais e mais difícil agradar
tantas ideologias diferentes. Uma das formas que o PT tentou para resolver isso
foi com os ministérios, criando múltiplos para dar cargos de poder para todo
mundo e conseguir o apoio. Outra foi o mensalão. Mas desse eu falo depois.
Então o país parou. Entenda. Sim,
muita coisa errada no campo econômico foi feita no passado. Contudo, um
agravante foi que, quando a bomba explodiu e decisões precisavam ser tomadas, o
governo estava parado porque ninguém concordava com ninguém. E a culpa disso é
nossa, porque não conseguimos também nos decidir na hora de votar. O corpo
político de um país é meramente a extensão de seu povo. Seja por quem votou a
favor, contra ou absteve-se, o resultado de nossas múltiplas ideologias sem
acordo comum foi um governo sem acordo. E cerca de um ano e meio solto no mar
com ninguém conseguindo mover o leme.
Nessa situação de estresse, veio o
impeachment. Novamente, vale lembrar como ele está ocorrendo. A base legal do
impeachment (já notou que impeachment quer dizer “Eu sou pêssego menta” em
inglês?) em curso é... frágil. São argumentos válidos, mas fracos. As acusações
envolvem ou coisas que não ocorreram neste mandato, ou coisas que são ambíguas.
As pedaladas fiscais são uma coisa interessante (se você não sabe o que é pedalada fiscal ainda, pergunta que eu faço um texto sobre isso). Ocorreram? Sim, ocorreram.
Contudo, sempre ocorreram, e nunca foram consideradas como um crime de
responsabilidade fiscal. Levantar isso como um argumento agora é forçar um
pouco a barra. Contudo, foi feito. E porque foi feito? Por golpismo?
Não. Foi feito pela necessidade de
consenso no governo. Para o país continuar, precisamos encontrar algo com o que
2/3 dos deputados concorde, e 51% dos senadores. E, pelo andar da carruagem, a
única coisa que conseguiu isso (ainda não sabemos do senado mas...) foi o
impeachment. Não que isso seja garantido, porque mesmo que Dilma caia e Temer
assuma, ainda tem gente o bastante desgostando dele para arriscar ele cair
também... consenso não é bem a palavra de ordem. E cada um que votou esse
domingo foi eleito pelo seu voto (ou pela falta dele) e com isso recebeu de
você o poder de exercer a SUA vontade. O que leva a outro argumento absurdo...
Várias pessoas, inclusive deputados,
argumentam que a câmara não tem o direito de votar o impeachment e que somente
uma nova eleição deveria fazer isso. Esse argumento é tão bom quanto a de que
tudo que é votado na câmara deveria ser votado por todo o povo nas urnas. O
motivo pelo qual elegemos deputados, senadores, vereadores e etecetera é
justamente escolher pessoas que estejam alinhadas com nossos valores e os
exerçam na administração pública, enquanto voltamos nosso tempo para outras
atividades, como se matar de trabalhar para pagar a escola da filha.
O que, mais uma vez, diz muito
sobre um povo que vota no Tiririca.
Então, se você tem muitas opiniões
sobre o que está acontecendo na câmara, saiba que é conseqüência DIRETA de
nossas escolhas na urna. Quando eu votei, sabia que quem fosse eleito teria um
governo difícil e quase impossível, porque a divisão pública era tangível.
Assim como argumentei para quem me perguntava da Marina na ocasião que, mesmo
que por uma aleatoriedade ela fosse eleita presidente não possuiria governabilidade
nenhuma, uma vez que muitos de seus eleitores na ocasião não eram genuínos
partidários dela, e estavam elegendo representantes de outros partidos,
enquanto que a própria não possui (ainda...) a articulação política para ter
muitos aliados. Neste momento, precisamos de articulação política, porque até
para decidirem afundar o país de vez precisam de consenso. E, absurdo seja, com o
tamanho do PMDB e com a articulação política que possuem (você não conhecia o
Temer? Engraçado, quase todos os políticos conhecem), sejam possivelmente
capazes de conseguir isso.
E... maldito é o povo que tem como
mestres políticos Temer, Cunha e Calheiros. Nem cito o Maluf, é um mito a parte. Mas querendo ou não, isso é culpa
nossa.
Antes de finalizar, sempre é bom
lembrar. Você sabe em quem votou? No site da câmara você pode ver tudo que ele
propôs, votou e fez: http://www2.camara.leg.br/
Pode também usar as interfaces para falar com ele/a, se quiser propor ou cobrar
algo. Tem muito mais chance de funcionar do que reclamar no face. Se você votou
numa legenda partidária, como eu, tente acompanhar a direção que seu partido
está seguindo ao menos. Interesse-se.
Ou então, claro, você sempre pode
escolher deixar isso de lado. Mas se for fazer isso, por favor, pare de ficar
dizendo #ÉGOLPE #NÃOÉGOLPE por aí como se não tivesse nada a ver com isso.
Referências para os números utilizados:
http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/noticia/2014/10/veja-os-deputados-federais-eleitos-por-estado.html
http://www.tse.jus.br/eleitor/estatisticas-de-eleitorado/filiados
http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos
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Onishiroi Shonin
terça-feira, 29 de março de 2016
Petrobrás, Lava-Jato, Fifa e... máquinas de lavar
A recente onda de prisões e
escândalos feita pela Lava-Jato no Brasil levou uma série de pessoas a
levantarem bandeiras contra a corrupção. Nunca na história deste país tantos
casos de desvio de recursos públicos e privados fez-se tão evidente. Com isto,
existem aqueles que acreditam que nunca se roubou tanto na história, ou que até
mesmo acreditam que governos anteriores não foram tão corruptos (para quem
acredita nesta última premissa, uma informação assustadora: Os ovos de
chocolate que você recebeu não vieram do coelhinho da páscoa, sua mãe que
comprou). Contudo, para quem compreende que SEMPRE houve corrupção e, mais
especificamente, sempre houve crime na história da humanidade, cabe a pergunta:
Porque de repente tantos casos de corrupção apareceram na mídia?
Para começar, é necessário
observar que a tendência em questão é global. É fácil ver somente a lava-jato e
esquecer o que ocorre no mundo, mas uma pesquisa rápida demonstra que, nos anos
recentes (e por recentes digo um período de três a seis anos) houve
investigações bem sucedidas de casos de corrupção envolvendo políticos na França, Malásia,
Brasil, Itália, Fifa (sejamos honestos,
membros da Fifa contam como políticos), para listar alguns. O que mudou então
para que de uns poucos anos para cá tenha ocorrido uma explosão de
investigações de corrupção, e elas tenham cada vez mais terminado em prisões?
Para poder explicar isso terei de voltar alguns anos no tempo e falar sobre o
problema mais clássico e eterno de todo criminoso. A lavagem de dinheiro.
Lavagem de dinheiro é a parte mais
complexa de quase todo crime. Pense assim. Uma pessoa pode roubar um banco e,
da noite para o dia, passar de pobretão para milionário. Contudo, ter milhões
em dinheiro vivo dentro do armário só tem utilidade se você pode gastar esse
dinheiro. Se essa pessoa que vivia em um conjugado alugado repentinamente
compra uma cobertura no Leblon, imediatamente será levantada a questão da
origem do recurso. Se a pessoa não consegue dar uma explicação justa e legal
(legal juridicamente, não legal bacana), infere-se que o recurso tem origem
ilegal e investigações começam. Lavagem de dinheiro então é o processo de pegar
esse dinheiro do crime e dar a ele uma origem honesta e justificável. O termo “Lavagem
de dinheiro” tem origem não confirmada e quase pitoresca. Alguns alegam que
ainda no tempo em que quase toda transação era em notas e a falsificação de
notas ainda era uma coisa comum (hoje isso é mais raro, pois não só é muito
mais difícil a produção como as notas são muito mais controladas). Para evitar
que as notas fossem identificadas como falsas, seus “fabricantes” supostamente
colocavam as notas em máquinas de lavar roupa, pois após uma ou duas rodadas na
máquina as notas saíam com aparência de velhas e desgastadas. Como notas velhas
chamam menos atenção que as notas novinhas, elas eram mais fáceis de passar
desapercebidas (similar ao antigo processo de “grilagem” no Brasil para dar
validade a documentos falsos criando uma aparência de antigos). Outra hipótese,
já mais complexa, é a de que muitas redes criminosas utilizavam estabelecimentos
de lava-roupas com objetivo de criar origem para os recursos. Este caso já é
confirmado como real e cabe explicar como funciona.
A idéia é simples, mesmo que a
execução seja complexa. O criminoso, no próprio nome ou em nome de um laranja
(termo técnico para testa-de-ferro. Sério, é um termo técnico) abre uma loja
relativamente pequena, como uma lavanderia. Esse empreendimento é interessante
porque exige pouco investimento, apenas o aluguel de um local e a compra de
algumas máquinas de lavar, então o dito criminoso consegue fazer isso com uma
justificativa de que tinha esse pequeno recurso originalmente. A partir de
então a dita loja gera uma certa receita X. Contudo, como as transações
comerciais dessa loja ocorrem todas em dinheiro vivo, não existe um produto
final entregue que possa ser contabilizado nem registros claros, é fácil para o
dono desta loja declarar uma receita maior, digamos, 2X. Claro, ele pagará
impostos sobre esse valor, mas poderá incorporar parte daquele dinheiro ilegal
no seu patrimônio com uma origem “honesta” de forma que não gere suspeitas. Lavanderias
continuam sendo muito utilizadas para lavagem de dinheiro, mas igualmente são
várias outras atividades que utilizam principalmente dinheiro vivo em suas
transações e/ou não tenham um produto final tangível e contabilizável. Por
exemplo contrário, é praticamente impossível lavar dinheiro com uma indústria
de bebidas no Brasil, uma vez que é fácil controlar quantas garrafas de
determinada bebida podem ser produzidas com base nos insumos comprados pela
empresa, como também uma lei exige a instalação de máquinas que contam quantas
garrafas são produzidas de cada bebida, máquinas estas controladas pela Casa
da Moeda. Assim, inflar a receita de uma indústria de bebidas exige
adulterar e subornar muita gente, além de grande investimento inicial na
fábrica em si. Em paralelo, negócios muito simples para lavagem de dinheiro
envolvem táxis, aonde basta comprar alguns veículos (possivelmente usados e
possivelmente também de origem ilegal), algumas licenças de taxímetro e pronto.
Faz-se uma rede e, como muitas corridas de táxi ocorrem em dinheiro, é fácil
fingir corridas que não existiram. Outras formas simples são lava-jatos (como
ocorreu em Braking Bad), ourivesarias e joalherias, empresas de consultoria,
bingos e cassinos, botecos e assim por diante. Contudo, como falei, este
processo é absurdamente complexo, muito mais do que o próprio crime. Pense um
pouco e você poderá lembrar pelos filmes que já viu quantas histórias de criminosos
sendo presos envolvia esse processo. Scarface e Al Capone são alguns bons
exemplos. O processo de lavagem de dinheiro é complexo não só por seu custo e
processo, mas também porque, mesmo que seja executado corretamente, possui
limites. Em Breaking bad existe o momento no qual Heisenberg possui mais
dinheiro sujo do que poderia lavar em toda uma vida. Se cometesse o erro de
colocar números altos demais no lucro falso do lava-jato, despertaria suspeitas
e acabaria sendo pego. Similarmente, muitas investigações da operação lava-jato
chegaram em pessoas que tinham recursos muito elevados vindo de consultorias
que não tinham porte nem serviço para tal e, assim, despertaram atenção.
Ok, agora que conversamos sobre
o básico da lavagem de dinheiro, voltamos a pergunta: O que houve que, de três,
quatro anos para cá, tanta corrupção foi descoberta no mundo? Existe uma série
de motivos, que foram encadeando-se e gerando uma bola de neve. A primeira
causa, e que compõe uma constante eterna, é a simples digitalização do dinheiro
e a facilitação do controle. A cada dia menos dinheiro circula em moeda e
papel, e mais circula digitalmente. Se por um lado é fácil dizer que foram
recebidas mais notas em uma corrida de táxi, não é possível dizer que houve
mais pagamentos via cartão de crédito, uma vez que é fácil conferir se houve a
contra parte da operação. Igualmente, vários produtos e serviços possuem
pequenas taxas embutidas no seu controle que permitem saber o que foi produzido
ou vendido, como o imposto sobre cada garrafa que comentei antes neste texto.
Transações financeiras, de transferência entre contas até a venda de ações igualmente
gera informes, comunicados e controles que podem ser acessados pela receita,
alguns nem precisando de quebra de sigilo bancário. Este aumento de eficiência
do controle por si só já melhorou em muito a capacidade de rastrear eventos de
lavagem de dinheiro. Contudo, isto somente não seria o bastante. Muitos casos
que começam com esse processo de investigação de lavagem de dinheiro não eram
capazes de chegar ao crime original, apenas descobrindo dinheiro de origem
duvidosa, sem a confirmação final, e terminavam com multas inibitórias ou
pagamentos vultosos de imposto, mas sem outra conclusão. No máximo conseguiam
prender um testa-de-ferro, que no fim estava lá para isso mesmo, e raramente
conseguia se chegar à pessoa final que originou e recebeu estes recursos.
Curiosamente, um segundo ponto crucial
para o avanço do combate à corrupção foi... a crise. Da mesma forma que quando
uma pessoa encontra-se com falta de dinheiro ela busca notas embaixo do colchão
e lembra daquele empréstimo de cinco anos atrás para decidir cobrar e tentar
algum retorno, os países também começam a procurar dinheiro em todos os cantos.
Isso fomenta as atividades de recuperação de recursos, o que inclui a busca por
esse dinheiro sujo que passou pela máquina de lavar. Essa busca, contudo, mira
no volume grande, nos desvios milionários, e poucos são maiores do que os que
ocorrem em desvio de dinheiro público. Ao rastrear esse dinheiro, contudo,
sempre chegava-se ao mesmo impasse. Podia-se ter evidências de que uma pessoa
obteve dinheiro ilícito, mas, para confirmar, esse dinheiro precisava ser
rastreado. E ao rastrear o dinheiro destes “big players” normalmente
tropeçava-se nos mesmos problemas: Os paraísos fiscais. Paraísos fiscais são,
essencialmente, países ou territórios com leis muito fracas de controle de
recursos, ou mesmo inexistentes. Se no Brasil eu preciso preencher milhões de
formulários e ter dados comprovados em inúmeras fontes caso eu subitamente
surja com uma mala cheia de dinheiro querendo abrir uma conta no banco, nas
Bahamas, em Mônaco e na Suíça, não. Não só podia abrir essa conta como esses
lugares garantiam meu sigilo. Se um governo perguntasse em qualquer um desses
países se eu tinha conta e exigisse a quebra do meu sigilo fiscal eles
simplesmente negariam. Ponto. Entenda, eu poderia entrar em um banco suíço
baleado, com uma camisa na qual estivesse escrito “Mafioso e orgulhoso” e
armado (a arma ficaria na recepção, claro), depositar uma mala de dinheiro,
alguns diamantes e o título de uma casa, e nada seria me perguntado, desde que
eu pagasse os custos elevados deles. E... sim, os outros países reclamavam.
Porém, não podiam fazer muita coisa, afinal, esses paraísos fiscais são países
soberanos e donos das próprias leis. Aliás, não são chamados de paraísos a toa,
uma vez que esses lugares constituem países ricos que vivem basicamente de
bancos e turismo. Uma vez que milionários do mundo todo possuem seu dinheiro
nestes locais e eles só podem usar o dinheiro lá, são normalmente paraísos
turísticos além de fiscais. Não havia real pressão para essas informações
bancárias, e era aceito o lugar destes paraísos fiscais no mundo, com algumas
sanções leves.
Até 2010. Como disse, a crise
pressionou muitos países a buscarem recursos aonde pudessem, e todos sabiam que
havia muito dinheiro escondido nestes paraísos. E começaram a pressionar mais e
mais por estas informações. Além de acusações diretas de bancos suíços
participando diretamente de crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas,
cabe notar o fato de que esses próprios países sofreram bastante com a crise. Uma
vez que suas maiores receitas provinham do sistema bancário e de turismo, suas
receitas foram abaladas sem grande capacidade de recuperação. E outros países
aproveitaram a oportunidade para apertar esses paraísos. Em Março de 2010 os
Estados Unidos oficializaram a legislação apelidada de FATCA
(Foreign Account Tax Compliance Act). Essa lei diz, entre outros, que os outros
países deveriam informar para a receita federal dos estados unidos a existência
de contas em instituições financeiras de qualquer cidadão americano. Caso
contrário, sofreriam sanções pesadas. Outros países não só começaram a aderir
ao FATCA, como debateram acordos de mútua ajuda no processo. Assim, não só passaram
a informar as movimentações dos americanos para os EUA, mas também receber de
volta informações sobre seus cidadãos em solo americano. A seriedade desse
processo foi tal que a Suíça aderiu ao FATCA. Com isso, mesmo que uma pessoa solicite
ao banco sigilo bancário, ainda assim os bancos suíços informam o número de
contas e o valor total delas. Quem permite a liberação de dados concede
praticamente acesso total de suas movimentações para a receita americana (não
acredita? http://bit.ly/1UzHc9p direto de
jornal suíço).
Contudo, a partir do momento que “pequenos”
criminosos e empresários são revelados por estas contas, igualmente ficou
possível localizar grandes somas ocultas por corrupção em esquemas políticos e
grandes empresas. Antigamente, bastaria todos negarem, e jamais poderia se
provar os pagamentos alegados por Alberto Youssef para os políticos. Antes,
jamais saberíamos se o Cunha realmente recebeu dinheiro porque não receberíamos
a informação das contas na Suíça. Agora é possível questionar
ao Cunha a origem dos recursos naquelas contas Suíças, uma vez que temos
essa informação. E negar não é mais simples, pois existem provas da existência
do dinheiro. O resultado disso, como vimos, é uma onda de investigações
conclusivas sobre corrupção passando por todos os países. Isso significa que
hoje estão roubando mais do que no passado, ou que antigamente não havia
corrupção? Claro que não. Porém, é mais fácil essas informações localizarem o
desvio novo do que o antigo. Isso vai acabar de vez com a corrupção? Igualmente
não. Assim como os vírus, cada nova forma de prender criminosos resulta no
extermínio de uma parte da população e na sobrevivência de um grupo resistente
que se adaptou a estas medidas, seguida pelo desenvolvimento de novas medidas. Ainda
assim, vivemos hoje o que provavelmente será, para muitos países, o fim de uma
era, com o término de um ciclo de corrupção. Em muitos países, ao fim deste
processo, teremos opiniões muito diferentes sobre nossos sistemas políticos.
Certamente haverá, por um tempo, menos corrupção, pois será difícil passar
impune. Infelizmente, por um tempo, enquanto adaptam-se e descobrem novas
formas de passarem desapercebidos do sistema. E, pelo conceito de que a moda
sempre se recicla, não estranharia nada se daqui a alguns anos subitamente
descobrirmos que 90% dos nossos políticos investem em redes de lavanderias...
OBS: Estou usando um teclado US/International, no qual escrever Suíça exige digitar quatro teclas para fazer "íç". Quase desisti de completar este texto duas vezes por causa disso hehe
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Onishiroi Shonin
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