domingo, 18 de maio de 2014

Quebrando as regras

Tinha dedos ágeis
escrevendo pelo teclado
como Vladimir Horowitz.

Tinha língua incansável
cheia de palavras
primorosamente rimadas.

Tinha mente afiada
perceptora de detalhes
que o mundo clareava.

Mas foi uma mulher que lhe disse
que não bastava ser poeta.
Tinha que saber puxar o cabelo.

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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Dando forma


Tentei escrever um poema
para ver se dando forma
era possível, talvez,
botar pra fora

esse foco, essa idéia,
que me ocupa, perturba,
sem parar, sem embotar
dia adentro, noite afora.

Que se me torna feliz,
me agonia e consome,
me levanta e me derruba.
Me vicia, me devora.

Eu desisto, em favor de dizer
que você vai ter simplesmente
que me beijar.
Você vai entrar na minha vida
já que se tornou toda a graça dela.


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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Um poema bobo

Era jovem e era rapaz,
e era cheio de nobreza.
Olhava o mundo como um quadro
e dizia sempre que iria retocá-lo.

Tinha no coração forte alicerce,
que resistia a qualquer intempérie,
pois nele havia uma moçoila,
a qual ele amava e que o amava.

Mas um dia o jovem, o pobre rapaz,
fez o mundo chorar ao vê-lo quebrar.
Ah, ele, o menino. O pobre rapaz.

É que ele, rapaz, nobre virjão,
descobriu que sua amada, seu coração,
trepava.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 15 de abril de 2014

Tempestade vermelha

De papel cinza e tinta preta,
fez-se dados, na nuvem.
Do oriente não veio sol,
mas vento frio e tempestade.

Sem som, sem grito, sem trovão.
Tudo caiu, ruiu.
Em chuvarada, de números
vermelhos disfarçada.

O dia findou.
Os homens duros despediram-se
ainda secos, e foram
para outro dia.

O hoje virou dados
na nuvem
e a bolsa caiu 2,21%


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Onishiroi Shonin

domingo, 6 de abril de 2014

Dedos na nuca

O hiato do segundo
aonde a vida se congela.
O ar prende,
a boca encharca,
a mão nem treme.

O mundo lento, aquoso.
Os pés se firmam,
mas encontram areia.
A mente foca.

E o corpo se lança, se joga.
As mãos se esticam,
a boca abre
em silêncio.

E o primeiro
beijo ocorre.


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Onishiroi Shonin

sábado, 5 de abril de 2014

Linha Amarela

A base era cinza e não branca,
e o artista, pouco inspirado.
Na sua curta aquarela
poucas cores, mal misturadas.

Fez uma linha amarela,
quase reta.
Em pontos, as vezes, borrada,
em outros, precisa tal qual régua.

Fez manchas de céu mas,
brancas e cinzas.
Fez céu de chuva, fez sem graça.
Sem azul, sem laranja.

O artista, pouco esforçado
fez não belo, não prático.
Mas a tela, revoltada,
brotou verde, rosa e vermelho,
de dentro para fora
e salvou o quadro.



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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 26 de março de 2014

A sala branca

Corri como um louco.
Respirei e suei,
rangi os dentes,
sangrei.

(Na sala branca)

Pulei e agarrei
ar e poeira.

(havia um cavaleiro)

Caí,
rolei,
corri.

(segurando uma espada)

Girei, continuei,
corpo tenso, insisti.

(displicente. Sorriu pequeno.)


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Onishiroi Shonin

sábado, 22 de março de 2014

Tudo o que não foi

Era uma vez uma menina
que escrevia poemas e poesias.
Tímida, a pobre menina,
as guardava, as escondia.

As poesias gritaram, um dia.
Cantantes, vibrantes,
queriam o som da voz,
queriam a luz do dia.

E a menina então,
a pobre menina,
fez-se grande e cantou
a bela poesia.

Mas a dura orelha
negra e branca e sem cor,
gritou gritou e gritou,
em prosa sem sintonia.

A menina, pobre menina,
todos os versos engoliu.
Chorou letras e canções
que nunca mais seriam.

A menina, rica mulher,
hoje simplesmente faz contas.
Soma, vende, brutaliza.
E sonha lindas canções,

explodindo conventos em prosa dura.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 18 de março de 2014

A última noite em que chorei

A noite era pontuada
de lanternas sorridentes.
O sabath era celebrado
por jovens descrentes.

Entre círculos de círculos
transladava um solitário.
De frágil carne, sem apoio,
dos truques vítima, escárnio.

Ferido, em fuga dentre os seus,
vacilou, caiu, quebrou.
Cerrou os punhos, tremeu,
sua dor se fez. Chorou.

Uma mão então se fez sentir.
Um braço, um torso,
um ombro. Liberto,
e nunca mais remorso.


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Onishiroi Shonin

segunda-feira, 17 de março de 2014

A guerra de um homem

O deserto me chama,
e espada em mãos,
vou-me, para que outros
não precisem ir.
Vou leve, em cascos ligeiros,
alforge vazio e coração cheio.

Todos os dias e noites,
procurarei seus olhos
no sol que nasce
na lua que se esconde.
Ouvirei suas preces,
no vento que sopra
e no silêncio da noite.

Eu volto. Eu hei de voltar.
Só lembre, por favor lembre
de me esperar.


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Onishiroi Shonin