Existe uma casa, num lugar distante
com um pequeno cercado de madeira
e um portão simples, quase infantil.
Chegando nela, existe um jardim
de grama verde e trilha de pedrinhas
tão convidativo que dá vontade de deitar.
No jardim há uma árvore da qual
um balanço ginga sozinho, sempre
esperando sua criança, sua dona.
Um canteiro, pertinho da casa
coberto de rosas brancas mostra
o cuidado de um jardineiro dedicado.
Os animais de estimação virão ver
a visita que se aproxima em alegria
e correr e cheirar e latir e miar.
Dentro da casa, numa cadeira de balanço
perto da lareira, com um livro na mão
permanece, sempre a espera, um marinheiro.
Calmo, sereno e paciente, ele aguarda
a casa, num distante futuro sonhado
tornar-se, finalmente
lar.
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Onishiroi Shonin
quarta-feira, 31 de julho de 2019
terça-feira, 23 de julho de 2019
Cabe uma penteadeira
Juntos, nós pintamos as paredes.
A sala ficou melhor que a cozinha.
Quando chegamos nela já sabíamos
o que diabos estávamos fazendo.
Rimos um bocado, acho que ninguém mais
tem uma sala pintada de branco-risada.
Colocamos um sofá para dois.
Você escolheu a cor e tecido
um que o gato não consegue arranhar.
Montei a cama, e os móveis
da cozinha, do quarto, da sala.
Tenho uma marca na mão
de todos os cento e doze parafusos.
Penduramos alguns quadros
e ganhamos um elefante.
Eu chamei de mitologia
mas nunca reclamei.
Nós construímos de um lugar
juntos
um lar.
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Onishiroi Shonin
A sala ficou melhor que a cozinha.
Quando chegamos nela já sabíamos
o que diabos estávamos fazendo.
Rimos um bocado, acho que ninguém mais
tem uma sala pintada de branco-risada.
Colocamos um sofá para dois.
Você escolheu a cor e tecido
um que o gato não consegue arranhar.
Montei a cama, e os móveis
da cozinha, do quarto, da sala.
Tenho uma marca na mão
de todos os cento e doze parafusos.
Penduramos alguns quadros
e ganhamos um elefante.
Eu chamei de mitologia
mas nunca reclamei.
Nós construímos de um lugar
juntos
um lar.
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Onishiroi Shonin
sexta-feira, 12 de julho de 2019
Lençóis dobrados
A cama está arrumada.
Lençóis dobrados,
travesseiros posicionados.
Tudo no mais perfeito lugar.
Parecia um erro.
A cama já esteve bagunçada,
com a capa saindo
lençóis pelo chão
e os travesseiros sabe se lá
aonde.
A cama bagunçada
tão convidativa.
Tão quente.
A cama está arrumada
e fria.
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Onishiroi Shonin
Lençóis dobrados,
travesseiros posicionados.
Tudo no mais perfeito lugar.
Parecia um erro.
A cama já esteve bagunçada,
com a capa saindo
lençóis pelo chão
e os travesseiros sabe se lá
aonde.
A cama bagunçada
tão convidativa.
Tão quente.
A cama está arrumada
e fria.
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Onishiroi Shonin
segunda-feira, 8 de julho de 2019
Noite de gala
Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Não é o que parece aqui.
Na noite, cheia de dourado
todos são brancos, muito brancos.
Eu mesmo, em minha pele parda
debaixo desse terno, gravata
e camisa de abotoadura
me sinto branco.
Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Talvez isso fosse bom.
Não aqui, aqui ninguém quer ser
pardo.
No canto de olho percebem o movimento
da mão negra, da pele escura,
que segura a bandeja, os copos.
Mas os gatos, são todos brancos.
Para eles, sou da cor da minha camisa
tão branca, tão alva.
Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Envergonho-me de não me sentir assim hoje.
Nesta noite, negra e dourada
me sinto incomodamente
branco.
Meu sangue é da cor da minha gravata.
No vento, minha pele quente
não sente frio.
Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Quem me dera.
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Onishiroi Shonin
são pardos.
Não é o que parece aqui.
Na noite, cheia de dourado
todos são brancos, muito brancos.
Eu mesmo, em minha pele parda
debaixo desse terno, gravata
e camisa de abotoadura
me sinto branco.
Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Talvez isso fosse bom.
Não aqui, aqui ninguém quer ser
pardo.
No canto de olho percebem o movimento
da mão negra, da pele escura,
que segura a bandeja, os copos.
Mas os gatos, são todos brancos.
Para eles, sou da cor da minha camisa
tão branca, tão alva.
Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Envergonho-me de não me sentir assim hoje.
Nesta noite, negra e dourada
me sinto incomodamente
branco.
Meu sangue é da cor da minha gravata.
No vento, minha pele quente
não sente frio.
Dizem que a noite todos os gatos
são pardos.
Quem me dera.
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Onishiroi Shonin
sexta-feira, 5 de julho de 2019
Aguaceiro
Ninguém viu o sol partir.
Na tarde chuvosa os olhos
ficam todos pesados, baixos.
De qualquer forma, no cinza
a manhã e o anoitecer se confundem.
Nem tudo fica cinza.
Os ternos continuam negros
e as árvores que ainda tem
ficam com as folhas mais verdes.
Mas os olhos, semicerrados
veem o chão e o asfalto molhado.
Uma criança brincando pula uma poça
esquecendo para trás seu guarda-chuva
cor de rosa.
Os olhos continuam pesados.
A mãe vê imprudência e doença
aonde o mundo lhe apresenta poesia.
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Onishiroi Shonin
Na tarde chuvosa os olhos
ficam todos pesados, baixos.
De qualquer forma, no cinza
a manhã e o anoitecer se confundem.
Nem tudo fica cinza.
Os ternos continuam negros
e as árvores que ainda tem
ficam com as folhas mais verdes.
Mas os olhos, semicerrados
veem o chão e o asfalto molhado.
Uma criança brincando pula uma poça
esquecendo para trás seu guarda-chuva
cor de rosa.
Os olhos continuam pesados.
A mãe vê imprudência e doença
aonde o mundo lhe apresenta poesia.
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Onishiroi Shonin
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Toda noite
Toda noite
ela sobe a rua correndo.
Não porque tenha pressa de chegar
não há nada tão importante em casa.
Mas ela não quer ficar na rua
sozinha.
Toda noite
ela sobe a rua com medo.
Não porque seja uma rua perigosa
não especialmente perigosa.
Mas é uma rua, e é de noite,
e ela está só.
Toda noite
ela sobe a rua pensando.
Não que esteja filosofando
embora bem quisesse.
Mas questiona, cada vez,
se vai ser de novo desta vez.
Toda noite.
Torna-se normal na vida dela
o absurdo.
Alguém desentendido a vê
subindo a rua correndo
e assovia.
Toda noite.
Deveria ser diferente
mas é igual.
Toda noite.
Ela perde um pouco da fé.
A vida perde um pouco dela.
Toda noite
ela sobe a rua correndo.
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Onishiroi Shonin
ela sobe a rua correndo.
Não porque tenha pressa de chegar
não há nada tão importante em casa.
Mas ela não quer ficar na rua
sozinha.
Toda noite
ela sobe a rua com medo.
Não porque seja uma rua perigosa
não especialmente perigosa.
Mas é uma rua, e é de noite,
e ela está só.
Toda noite
ela sobe a rua pensando.
Não que esteja filosofando
embora bem quisesse.
Mas questiona, cada vez,
se vai ser de novo desta vez.
Toda noite.
Torna-se normal na vida dela
o absurdo.
Alguém desentendido a vê
subindo a rua correndo
e assovia.
Toda noite.
Deveria ser diferente
mas é igual.
Toda noite.
Ela perde um pouco da fé.
A vida perde um pouco dela.
Toda noite
ela sobe a rua correndo.
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Onishiroi Shonin
quinta-feira, 20 de junho de 2019
Lugar de fala
Ela é forte, tão forte
que você segue com os olhos quando passa,
e com os passos quando ouve a voz.
Ela é forte, toda ela,
de carne, osso, lágrimas e dor.
Ferida, quebrada, cansada,
costas curvadas, mas ereta.
Ela é forte, muito forte.
Nem ela sabe, em sua fragilidade,
que da voz tremida
da infância perdida
fez-se maior, em pétala,
espinho e aço.
Ela é forte. Tão forte.
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Onishiroi Shonin
que você segue com os olhos quando passa,
e com os passos quando ouve a voz.
Ela é forte, toda ela,
de carne, osso, lágrimas e dor.
Ferida, quebrada, cansada,
costas curvadas, mas ereta.
Ela é forte, muito forte.
Nem ela sabe, em sua fragilidade,
que da voz tremida
da infância perdida
fez-se maior, em pétala,
espinho e aço.
Ela é forte. Tão forte.
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Onishiroi Shonin
domingo, 16 de junho de 2019
So far so good
Hoje o dia amanheceu bem.
O sol não estava forte demais
mas brilhava no céu azul.
Não acordei tarde ou atrasado
mas dormi bem a noite toda.
Os bens duráveis que desejo
tenho todos em bom estado.
Os consumíveis que dão vontade,
consumo.
A pessoa amada anda à meu lado
e não preciso trabalhar uma vez
que amo aquilo que faço.
E por isso que nessa manhã entrei em pânico
e cravei uma faca em minha mão
antes que corresse o risco de me
acomodar.
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Onishiroi Shonin
O sol não estava forte demais
mas brilhava no céu azul.
Não acordei tarde ou atrasado
mas dormi bem a noite toda.
Os bens duráveis que desejo
tenho todos em bom estado.
Os consumíveis que dão vontade,
consumo.
A pessoa amada anda à meu lado
e não preciso trabalhar uma vez
que amo aquilo que faço.
E por isso que nessa manhã entrei em pânico
e cravei uma faca em minha mão
antes que corresse o risco de me
acomodar.
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Onishiroi Shonin
sexta-feira, 14 de junho de 2019
Ressaca
Eu a sinto escorrendo entre meus dedos,
escapando, de minhas unhas afiadas,
enquanto a prendo
com meus dentes.
Mordo. Cada vez mais forte.
Minha boca sente o sabor metálico
mas ainda assim, lentamente
ela foge, como areia, grão
a grão.
As minhas mãos, o vértice
da cruel ampulheta, lenta,
inexorável.
Que não sou capaz de inverter
nem, com todo meu poder,
conter.
Eu a sinto escorrendo entre meus dedos.
Seu corpo, se desfaz, se esvai,
levada de mim, pelo vento.
Mas meus dentes, estes,
a prendem.
Mordo dela a alma.
A perco, quando o último grão
cai
e o vento
a leva.
Sinto o frio
a ausência
o fim da tempestade.
Mas os lábios, nestes
o sabor metálico
da eternidade.
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Onishiroi Shonin
escapando, de minhas unhas afiadas,
enquanto a prendo
com meus dentes.
Mordo. Cada vez mais forte.
Minha boca sente o sabor metálico
mas ainda assim, lentamente
ela foge, como areia, grão
a grão.
As minhas mãos, o vértice
da cruel ampulheta, lenta,
inexorável.
Que não sou capaz de inverter
nem, com todo meu poder,
conter.
Eu a sinto escorrendo entre meus dedos.
Seu corpo, se desfaz, se esvai,
levada de mim, pelo vento.
Mas meus dentes, estes,
a prendem.
Mordo dela a alma.
A perco, quando o último grão
cai
e o vento
a leva.
Sinto o frio
a ausência
o fim da tempestade.
Mas os lábios, nestes
o sabor metálico
da eternidade.
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Onishiroi Shonin
segunda-feira, 10 de junho de 2019
Noite, só
A noite que veio era mais.
Mais escura, mais fria, mais.
Pura e simplesmente, imensa.
Nenhuma coberta afastou o frio
e nenhuma luz iluminou as trevas.
A noite solitária era mais noite
que os artifícios vazios
que tentavam fugir dela.
A noite
era mais.
Só, na imensidão do quarto,
sobre a cama gigante,
sob o manto da mais noite,
estendi a mão ao lado
e tateei o vazio do seu lugar.
O seu lugar, que não é mais meu,
e que, vazio, torna meu mundo
o da noite mais noite
do frio mais frio
da escuridão mais escura.
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Onishiroi Shonin
Mais escura, mais fria, mais.
Pura e simplesmente, imensa.
Nenhuma coberta afastou o frio
e nenhuma luz iluminou as trevas.
A noite solitária era mais noite
que os artifícios vazios
que tentavam fugir dela.
A noite
era mais.
Só, na imensidão do quarto,
sobre a cama gigante,
sob o manto da mais noite,
estendi a mão ao lado
e tateei o vazio do seu lugar.
O seu lugar, que não é mais meu,
e que, vazio, torna meu mundo
o da noite mais noite
do frio mais frio
da escuridão mais escura.
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Onishiroi Shonin
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