sexta-feira, 20 de março de 2015
A morte do chinelo
Era um par de Havainas. Havaianas mesmo, do tempo em que era o chinelo mais comum do mundo. Meu primeiro par, ou, ao menos, o primeiro que consigo lembrar. Antes somente utilizava chinelos da Raider (não, não ganho jabá por isso. Ou com qualquer coisa deste blog aliás). Um carnaval, dez anos atrás, fui para mauá com um amigo e por alguma razão, levei quele par de havaianas. Na época, tinha ainda um símbolo da coca-cola nela, o que não foi a razão de escolhe-la (minha fonte de cafeína já era o café, mesmo nessa época), o fiz por ser uma que tinha uma alça para prender no pé, o que achei que seria prático no carnaval.
Devo ter demorado umas 24 horas para cortar a maldita alça. E passei depois uns bons dois ou três anos reclamando do chinelo sempre que o usava. Mas o tempo passou. A marca da coca-cola foi sumindo, a espuma foi amaciando com meu peso (o que, visto minha diminuta massa corporal, demorou um bocado), o formato do pé foi ficando definido na superfície... e aquela maldita superfície rugosa e escorregadia foi ficando cada vez mais lisa e, estranhamente, aderente. Era um chinelo com o qual se podia correr, ir a praia, andar de bicicleta e ainda chutar pessoas inconvenientes (não recomendo fazer isso com desconhecidos, melhores amigos fazem excelente material de chute para esse tipo de teste).
Ah. E as memórias. Não sei mais quantas vezes pisei na areia com aquele chinelo, para depois o carregar na mão enquanto corria. Ou quantas vezes passei horas sobre o asfalto quente e a sola dele não derreteu. Quantas poças de cerveja (e outros líquidos menos interessantes) foram pisadas... gostaria de ter a quilometragem registrada. Cabe lembrar que para mim, 10 km é uma distância perto para caminhar, e durante uns bons anos não me dei ao trabalho de trocar o chinelo. Aonde precisasse ser, aquele chinelo vagabundo e puído, já sem sinal de sua origem, iria comigo, por vezes jogado de forma descuidada e aleatória na mala ou na mochila caso fosse necessário (a vida me ensinou que é sempre bom ter um chinelo na mochila, mesmo se você tiver que ir à um lugar de sapatos sociais).
E então, eis que o chinelo arrebentou. Sem nenhum acidente ou sinal prévio, simplesmente, andando pela casa, ele desistiu de viver, como se chegasse ao limite de sua idade e seu tempo tivesse acabado. Um triste evento. Um fim indigno para um companheiro tão antigo. Mas tento lembrar das coisas positivas e seguir em frente. Afinal, ao longo desses anos acumulei uma incrível quantidade de chinelos nunca utilizados. Ao olhar tive a sensação de que eles se multiplicam espontaneamente. Não consigo me recordar da origem de nenhum deles. Escolho um, pensando no legado que ele herdará.
Na primeira pisada na rua penso que preferiria andar descalço. Sobre o asfalto quente. Com uns caquinhos de vidro para adicionar emoção. Três tropeços (que não entendi a origem), alguns escorregões (falei da superfície rugosa anti-aderente?) e uma queda quase fatal (assim como os gatos, o chinelo parece ter uma vontade de dobrar-se quando menos espero visando a dominação mundial) depois em um tempo de 10 minutos (!) de caminhada, descubro que me sinto velho demais para dispor do tempo e energia para reconstituir esse tipo de relação com um chinelo. É muito que preciso investir, e já tenho que investir meu tempo em relações com minha mulher, filha, colegas de trabalho e este laptop que adora descobrir novos problemas que precisam de correção. Infelizmente, me vejo obrigado a pendurar o (des)conforto de um par de chinelos no pé. É triste, mas preciso aceitar. Acabou. Foi um tempo bom, e pensarei neles nos dias de finados. So long, and thanks for all the fish.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
A coisa toda
Eu sei que tem as contas
e toda a questão de se tem
ou não
dinheiro para todas elas.
Só que hoje não quero saber.
Sei que tem as outras questões
da opinião e da moral e da...
das outras coisas.
Realmente não pensei nelas hoje.
Acho que esqueci o celular
em algum lugar.
Não me lembro muito bem,
hoje ele não vai importar.
Hoje (e para sempre)
vamos simplesmente
nos beijar até as estrelas apagar.
______________
Onishiroi Shonin
e toda a questão de se tem
ou não
dinheiro para todas elas.
Só que hoje não quero saber.
Sei que tem as outras questões
da opinião e da moral e da...
das outras coisas.
Realmente não pensei nelas hoje.
Acho que esqueci o celular
em algum lugar.
Não me lembro muito bem,
hoje ele não vai importar.
Hoje (e para sempre)
vamos simplesmente
nos beijar até as estrelas apagar.
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Onishiroi Shonin
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Broken toy
I've felt the urge to love,
to ease the burden of emptiness.
Felt it not as a hunger
(as once though I would it be)
and not as a unending thirst
(as sour my throat was even still).
I've felt the urge to love,
unbeknownst to it's power.
It's subtle, overwhelming
power.
But for once, I've felt empty
of the always trice damned
emptiness.
Once
I've even felt a beating.
Was empty of emptiness
but empty was I still.
Loved, voraciously. Loved.
And if the emptiness left
it didn't welcomed anything else.
Then, for a while
I drift. And longed.
Until I found my real filling
in emptiness.
______________
Onishiroi Shonin
to ease the burden of emptiness.
Felt it not as a hunger
(as once though I would it be)
and not as a unending thirst
(as sour my throat was even still).
I've felt the urge to love,
unbeknownst to it's power.
It's subtle, overwhelming
power.
But for once, I've felt empty
of the always trice damned
emptiness.
Once
I've even felt a beating.
Was empty of emptiness
but empty was I still.
Loved, voraciously. Loved.
And if the emptiness left
it didn't welcomed anything else.
Then, for a while
I drift. And longed.
Until I found my real filling
in emptiness.
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Onishiroi Shonin
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Queimando o céu (2)
Meu céu era laranja
e vivia com medo
de ser o crepúsculo
(do fim de tudo anúncio)
e não da aurora
o lusco-fusco.
A agonia e temor
pareceram uma eternidade
mas por fim, ficou
tudo azul
e fez-se dia.
Dia belo e glorioso
que sobre um verde gramado
frui.
Fruir.
Senti o vento e o frio
de uma sombra.
Tolo.
Ao dia segue-se
n a t u r a l m e n t e
o vermelho crepuscular.
______________
Onishiroi Shonin
e vivia com medo
de ser o crepúsculo
(do fim de tudo anúncio)
e não da aurora
o lusco-fusco.
A agonia e temor
pareceram uma eternidade
mas por fim, ficou
tudo azul
e fez-se dia.
Dia belo e glorioso
que sobre um verde gramado
frui.
Fruir.
Senti o vento e o frio
de uma sombra.
Tolo.
Ao dia segue-se
n a t u r a l m e n t e
o vermelho crepuscular.
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Onishiroi Shonin
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
Coisa mais pura
Eu passo o tempo todo pensando
em números, palavras, sentidos
escolhas.
Peso e considero, meço.
Comparo e debato.
Decido.
Viro em cruzamentos ou
sigo reto, ou volto
ou outra coisa qualquer.
Vivo pensando.
Respiro pensando.
Durmo pensando.
Quando escrevo
finalmente
eu não me importo.
______________
Onishiroi Shonin
em números, palavras, sentidos
escolhas.
Peso e considero, meço.
Comparo e debato.
Decido.
Viro em cruzamentos ou
sigo reto, ou volto
ou outra coisa qualquer.
Vivo pensando.
Respiro pensando.
Durmo pensando.
Quando escrevo
finalmente
eu não me importo.
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Onishiroi Shonin
domingo, 4 de janeiro de 2015
Weapons of mass destruction
The barbarian that came
that season was the worst.
Drank all mead, not a spill.
Eat all meat, if raw still.
In his hands not axe and board
in his head not helmet and horns.
Even so the barbarian walked
unchallenged, unwavering.
Put fear and cowardice
in our warriors.
Stole the heart and soul
of our women.
Bewitched the dreams and hopes
of our children.
The damn barbarian
with his lute and verses
who did not hold back a single string.
______________
Onishiroi Shonin
that season was the worst.
Drank all mead, not a spill.
Eat all meat, if raw still.
In his hands not axe and board
in his head not helmet and horns.
Even so the barbarian walked
unchallenged, unwavering.
Put fear and cowardice
in our warriors.
Stole the heart and soul
of our women.
Bewitched the dreams and hopes
of our children.
The damn barbarian
with his lute and verses
who did not hold back a single string.
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Onishiroi Shonin
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Terça de milagre
E então sentei na cadeira
porque é terça, sim
mas quarta é feriado.
E liguei o som e ouvi
meu coração cantando
louco por você. Afinal
heart tinha a melhor guitarra
(e voz).
E bebi. Bastante e muito a beça
(é feriado após a terça
e isso pode ser dito de novo).
Não tive um motivo para rir
nem comemorar. Mas foda-se.
Foda-se.
Escrevi um poema.
______________
Onishiroi Shonin
porque é terça, sim
mas quarta é feriado.
E liguei o som e ouvi
meu coração cantando
louco por você. Afinal
heart tinha a melhor guitarra
(e voz).
E bebi. Bastante e muito a beça
(é feriado após a terça
e isso pode ser dito de novo).
Não tive um motivo para rir
nem comemorar. Mas foda-se.
Foda-se.
Escrevi um poema.
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Onishiroi Shonin
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Alteração do superavit 2014
Vamos lá. Eu costumo evitar a política. Costumo mesmo. Mesmo confrontado, tento guardar minha opinião para mim, e permitir a cada pessoa que faça sua própria pesquisa. Na realidade, eu evito falar qualquer coisa que possa ser entendida como tentativa de mudar a opinião de outra pessoa, salvo caso ela tente me atacar diretamente. Eu amo o livre arbítrio e quero sempre permitir a cada um o total direito de ter o próprio. Mas, as vezes, eu me sinto forçado a manifestar-me.
Certamente você já leu/ouviu algo sobre o debate corrente envolvendo termos como superávit primário, meta fiscal, e umas tais LRF e LDO. E talvez esteja saindo por aí dizendo sua opinião sobre o assunto. Bem, eu vou tentar me manter neutro, mas quero tentar esclarecer o que está em debate. Sou, apesar de meramente um filósofo, indivíduo versado em jurisdiquês (dialeto antigo do português) e quero expor algumas opiniões sobre o debate para auxiliar a formação de opinião. Vamos pelo começo.
Nossa constituição prevê criação de legislação específica para controles de finanças públicas (Art. 163 da constituição). Creio que é fácil compreender que isso faz todo sentido, uma vez que ninguém gostaria que o governo estivesse habilitado a gastar com o que quisesse (como viagens de férias ou financiamento de empresas para parentes), nem que gastasse mais (ok, MUITO mais) do que gera de receita. Claro, ao longo das décadas a legislação pertinente em questão sofreu algumas alterações e emendas, para delimitar eventos não previstos e etecetera. Eventualmente, foi criada a LRF - LEI DA RESPONSABILIDADE FISCAL (Lei Complementar N 101, de 4 de maio de 2000; guarde essa sigla). Essa é a lei em vigor, e ela tem uma série de objetivos. Um dos pontos mais importantes dessa lei é que ela impedia alguns "truques" muito utilizados nos governos anteriores, de no final de um mandato iniciar grandes gastos com coisas vistosas (principalmente obras e criação de empregos mediante novos cargos públicos ou expansão de empresas públicas de forma desnecessária, algum leitor lembra dos tempos que havia uma fábrica estatal de GUARDA CHUVAS?), e os gastos ficavam na conta do próximo governo, que começava com impopulares medidas de corte disso tudo para ter algum recurso. Além disso, a lei prevê a meta de superavit fiscal. Superavit significa, de forma extremamente simplificada, receber mais do que gasta. O leitor pode se perguntar como seria possível gastar mais do que se recebe. Quem tem cheque especial certamente sabe que é possível. O governo tem, de forma similar, formas de gerar recurso mediante empréstimo, seja pelo tesouro direto, seja com FMI, ou com outras formas mais complexas. A obrigatoriedade de Superavit fiscal existe com o objetivo de garantir que esse endividamento público diminua, e não cresça. Alguém poderia dizer que é insensibilidade uma lei que prevê a capacidade de sempre receber mais do que se gasta, mas essa sensibilidade existe. A lei determina metas variáveis dependendo do crescimento econômico (PIB, entre outros dados) de forma que haja flexibilização correspondente dessa meta ou mesmo sua liberação em cenários de contração econômica (AKA, recessão. Fuja dessa palavra, ela não é legal).
A LRF (guardou a sílaba né?) define várias regras, mas essas metas são estabelecidas de acordo com uma outra lei, que é referência desta, a LDO - LEI DE DIRETRIZES ORÇAMENTÁRIAS (essa lei é definida anualmente, com base em vários dados, para estados e união). Essencialmente, a LRF diz como pode ser gasto, e a LDO diz o QUANTO pode ser gasto com O QUE, e meu objetivo de superavit. Isto é, na LDO tem regrinhas que me proíbem de gastar demais com uma coisa, que de outra forma me permitiria "enganar" minhas metas (por exemplo, exagerando no gasto com cargos públicos para maquiar o desemprego).
Caso em um ano o governo não atinja os objetivos na lei, qualquer cidadão pode denunciar o evento, que deve ser julgado e, caso condenado, prevê alguns efeitos, como o afastamento de cargos públicos por prazo não superior a cinco anos (Lei N 1.079, de 10 de abril de 1950. É, não é lá a pena mais severa que tem na legislação brasileira, roubar uma galinha é muito pior do que endividar o país). Pode ser pouco, mas significa que os envolvidos perdem pelo menos um período eleitoral, já que são imediatamente destituídos de qualquer cargo em que estejam (e só podem ser restituídos caso outro julgamento os absolva). Ou seja, descumprir a meta é algo chato. Não é o fim do mundo, mas é chato, além de um desgasto na imagem (não que o desgaste seja tanto, o Collor é prova de que é perfeitamente possível ser condenado e voltar algum tempo depois inocentado com um penteado diferente).
Nosso governo atual, já há algum tempo, estava em risco de não cumprir a meta. Recentemente, este risco deixou de existir para tornar-se uma certeza. No cenário atual, é IMPOSSÍVEL atingir o superávit fiscal. Não estou exagerando ou sendo tendencioso. Exagero e tendenciosismo estão entre os motivos pelos quais evito este assunto. Porém, como alguns sabem, eu trabalho com números. Volte ali naquele impossível em letras capitais acima e fique olhando para ele um pouco. Eu espero.
Números não mentem. Sim, cálculo diferencial e limite podem gerar opiniões diversas sobre seus resultados, mas balanços e controles de custo/receita não tem como ter resultados distintos. 2 + 2 = 4 e 2 - 4 = -2 sempre. Então, quando digo que o superavit não pode ser alcançado este ano não estou falando por minha posição política, e sim por matemática básica. Exceto...
Lembra que a LDO determina o QUANTO gasta-se com o QUE? Então... ela também determina como a gente faz a conta do superavit. E, como falamos, ela prevê flexibilizações. Existem alguns gastos contingenciais que não contam no superavit, por exemplo. Isso significa que se eu gasto 10, mas 2 foram gastos em "despesa que não conta no superavit", eu conto como se tivesse gasto 8. Assim, se recebi 12 e meu superavit era 4, eu teria alcançado o objetivo. Pegaram até aqui? Ótimo. Se quiser que eu repita, é só mover a barra de rolagem para cima. O texto é longo, aproveite para beber uma água. Agora vamos em frente.
Ontem, 11/11/2014, foi encaminhado ao congresso projeto de lei para alteração da LDO 2014. Esse projeto altera um parágrafo de forma a, simplificadamente, permitir que os gastos com o PAC deixem de contar para a meta do superavit. Isso significa, na conta até o mês passado, um valor de 127 bilhões de reais. Nossa meta de superavit é de 116,1 bilhões. Só com a aprovação dessa lei já passamos do nosso atual déficit primário para o lado positivo da balança. Adicionalmente, o PAC prevê várias formas de autorizar rapidamente gastos adicionais. Como cada real gasto no PAC não conta, até o fim do ano é possível que esses 127 bilhões cresçam conforme necessário. O que isso significa?
Digamos que VOCÊ determine uma meta de, no ano, começar e fechar o ano sem dever um real no banco. Em novembro, faltando 40 dias para o fim do ano, você olha sua conta no vermelho e determina que o gasto com cartão de crédito não entra nessa regra. Então em dezembro pode perder a linha a vontade no cartão que continua obedecendo sua meta pessoal. Parabéns.
Essencialmente, é isso que o governo está fazendo. Ah, a LDO já foi alterada esse ano. Quatro vezes se não me engano. Mas nenhuma vez foi na reta final do ano, com o balanço negativo e colocando na conta a permissão para descontar uma nota bilionária que tem autorização para crescer mais o quanto quiserem. É claro, essas coisas demoram para ser votadas, então foi designada urgência. HOJE (o projeto foi apresentado ONTEM, e HOJE, 12/11/2014) já foi levantado (www.congressonacional.leg.br/portal/noticia e também www2.camara.leg.br/camaranoticias coloque esses links nos seus favoritos, compartilha com os amigos para fazerem o mesmo. Não peço isso para meu blog, mas para esses endereços eu peço).
Paro por aqui, como disse, não quero expressar minha opinião pessoal, apenas permitir aos que estão fazendo isso tenham conhecimento de causa. Sem mais.
______________ Onishiroi Shonin
Certamente você já leu/ouviu algo sobre o debate corrente envolvendo termos como superávit primário, meta fiscal, e umas tais LRF e LDO. E talvez esteja saindo por aí dizendo sua opinião sobre o assunto. Bem, eu vou tentar me manter neutro, mas quero tentar esclarecer o que está em debate. Sou, apesar de meramente um filósofo, indivíduo versado em jurisdiquês (dialeto antigo do português) e quero expor algumas opiniões sobre o debate para auxiliar a formação de opinião. Vamos pelo começo.
Nossa constituição prevê criação de legislação específica para controles de finanças públicas (Art. 163 da constituição). Creio que é fácil compreender que isso faz todo sentido, uma vez que ninguém gostaria que o governo estivesse habilitado a gastar com o que quisesse (como viagens de férias ou financiamento de empresas para parentes), nem que gastasse mais (ok, MUITO mais) do que gera de receita. Claro, ao longo das décadas a legislação pertinente em questão sofreu algumas alterações e emendas, para delimitar eventos não previstos e etecetera. Eventualmente, foi criada a LRF - LEI DA RESPONSABILIDADE FISCAL (Lei Complementar N 101, de 4 de maio de 2000; guarde essa sigla). Essa é a lei em vigor, e ela tem uma série de objetivos. Um dos pontos mais importantes dessa lei é que ela impedia alguns "truques" muito utilizados nos governos anteriores, de no final de um mandato iniciar grandes gastos com coisas vistosas (principalmente obras e criação de empregos mediante novos cargos públicos ou expansão de empresas públicas de forma desnecessária, algum leitor lembra dos tempos que havia uma fábrica estatal de GUARDA CHUVAS?), e os gastos ficavam na conta do próximo governo, que começava com impopulares medidas de corte disso tudo para ter algum recurso. Além disso, a lei prevê a meta de superavit fiscal. Superavit significa, de forma extremamente simplificada, receber mais do que gasta. O leitor pode se perguntar como seria possível gastar mais do que se recebe. Quem tem cheque especial certamente sabe que é possível. O governo tem, de forma similar, formas de gerar recurso mediante empréstimo, seja pelo tesouro direto, seja com FMI, ou com outras formas mais complexas. A obrigatoriedade de Superavit fiscal existe com o objetivo de garantir que esse endividamento público diminua, e não cresça. Alguém poderia dizer que é insensibilidade uma lei que prevê a capacidade de sempre receber mais do que se gasta, mas essa sensibilidade existe. A lei determina metas variáveis dependendo do crescimento econômico (PIB, entre outros dados) de forma que haja flexibilização correspondente dessa meta ou mesmo sua liberação em cenários de contração econômica (AKA, recessão. Fuja dessa palavra, ela não é legal).
A LRF (guardou a sílaba né?) define várias regras, mas essas metas são estabelecidas de acordo com uma outra lei, que é referência desta, a LDO - LEI DE DIRETRIZES ORÇAMENTÁRIAS (essa lei é definida anualmente, com base em vários dados, para estados e união). Essencialmente, a LRF diz como pode ser gasto, e a LDO diz o QUANTO pode ser gasto com O QUE, e meu objetivo de superavit. Isto é, na LDO tem regrinhas que me proíbem de gastar demais com uma coisa, que de outra forma me permitiria "enganar" minhas metas (por exemplo, exagerando no gasto com cargos públicos para maquiar o desemprego).
Caso em um ano o governo não atinja os objetivos na lei, qualquer cidadão pode denunciar o evento, que deve ser julgado e, caso condenado, prevê alguns efeitos, como o afastamento de cargos públicos por prazo não superior a cinco anos (Lei N 1.079, de 10 de abril de 1950. É, não é lá a pena mais severa que tem na legislação brasileira, roubar uma galinha é muito pior do que endividar o país). Pode ser pouco, mas significa que os envolvidos perdem pelo menos um período eleitoral, já que são imediatamente destituídos de qualquer cargo em que estejam (e só podem ser restituídos caso outro julgamento os absolva). Ou seja, descumprir a meta é algo chato. Não é o fim do mundo, mas é chato, além de um desgasto na imagem (não que o desgaste seja tanto, o Collor é prova de que é perfeitamente possível ser condenado e voltar algum tempo depois inocentado com um penteado diferente).
Nosso governo atual, já há algum tempo, estava em risco de não cumprir a meta. Recentemente, este risco deixou de existir para tornar-se uma certeza. No cenário atual, é IMPOSSÍVEL atingir o superávit fiscal. Não estou exagerando ou sendo tendencioso. Exagero e tendenciosismo estão entre os motivos pelos quais evito este assunto. Porém, como alguns sabem, eu trabalho com números. Volte ali naquele impossível em letras capitais acima e fique olhando para ele um pouco. Eu espero.
Números não mentem. Sim, cálculo diferencial e limite podem gerar opiniões diversas sobre seus resultados, mas balanços e controles de custo/receita não tem como ter resultados distintos. 2 + 2 = 4 e 2 - 4 = -2 sempre. Então, quando digo que o superavit não pode ser alcançado este ano não estou falando por minha posição política, e sim por matemática básica. Exceto...
Lembra que a LDO determina o QUANTO gasta-se com o QUE? Então... ela também determina como a gente faz a conta do superavit. E, como falamos, ela prevê flexibilizações. Existem alguns gastos contingenciais que não contam no superavit, por exemplo. Isso significa que se eu gasto 10, mas 2 foram gastos em "despesa que não conta no superavit", eu conto como se tivesse gasto 8. Assim, se recebi 12 e meu superavit era 4, eu teria alcançado o objetivo. Pegaram até aqui? Ótimo. Se quiser que eu repita, é só mover a barra de rolagem para cima. O texto é longo, aproveite para beber uma água. Agora vamos em frente.
Ontem, 11/11/2014, foi encaminhado ao congresso projeto de lei para alteração da LDO 2014. Esse projeto altera um parágrafo de forma a, simplificadamente, permitir que os gastos com o PAC deixem de contar para a meta do superavit. Isso significa, na conta até o mês passado, um valor de 127 bilhões de reais. Nossa meta de superavit é de 116,1 bilhões. Só com a aprovação dessa lei já passamos do nosso atual déficit primário para o lado positivo da balança. Adicionalmente, o PAC prevê várias formas de autorizar rapidamente gastos adicionais. Como cada real gasto no PAC não conta, até o fim do ano é possível que esses 127 bilhões cresçam conforme necessário. O que isso significa?
Digamos que VOCÊ determine uma meta de, no ano, começar e fechar o ano sem dever um real no banco. Em novembro, faltando 40 dias para o fim do ano, você olha sua conta no vermelho e determina que o gasto com cartão de crédito não entra nessa regra. Então em dezembro pode perder a linha a vontade no cartão que continua obedecendo sua meta pessoal. Parabéns.
Essencialmente, é isso que o governo está fazendo. Ah, a LDO já foi alterada esse ano. Quatro vezes se não me engano. Mas nenhuma vez foi na reta final do ano, com o balanço negativo e colocando na conta a permissão para descontar uma nota bilionária que tem autorização para crescer mais o quanto quiserem. É claro, essas coisas demoram para ser votadas, então foi designada urgência. HOJE (o projeto foi apresentado ONTEM, e HOJE, 12/11/2014) já foi levantado (www.congressonacional.leg.br/portal/noticia e também www2.camara.leg.br/camaranoticias coloque esses links nos seus favoritos, compartilha com os amigos para fazerem o mesmo. Não peço isso para meu blog, mas para esses endereços eu peço).
Paro por aqui, como disse, não quero expressar minha opinião pessoal, apenas permitir aos que estão fazendo isso tenham conhecimento de causa. Sem mais.
______________ Onishiroi Shonin
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Quinta-feira
Queria sentar sob as estrelas no gramado
e tomar do vinho direto da garrafa,
misturá-lo com o néctar de tua boca,
saborear-te com a noite e a lua.
Mas hoje a noite é de lua nova,
tua boca está distante incontáveis milhas
e nuvens cobrem todas as estrelas.
Resta-me grama e vinho,
e motivos inúmeros.
______________
Onishiroi Shonin
e tomar do vinho direto da garrafa,
misturá-lo com o néctar de tua boca,
saborear-te com a noite e a lua.
Mas hoje a noite é de lua nova,
tua boca está distante incontáveis milhas
e nuvens cobrem todas as estrelas.
Resta-me grama e vinho,
e motivos inúmeros.
______________
Onishiroi Shonin
domingo, 24 de agosto de 2014
Quinhentas milhas
Acordei como um autômato
com o braço procurando algo
que não estava do meu lado.
Bebi o café com leite e
mesmo assim não acabou
a sensação de incompletês.
Minha mente transitou por
todas as memórias que
deveriam ser mais completas.
O mundo hoje acordou errado
concluí.
Eu estou aqui, e você aí.
______________
Onishiroi Shonin
com o braço procurando algo
que não estava do meu lado.
Bebi o café com leite e
mesmo assim não acabou
a sensação de incompletês.
Minha mente transitou por
todas as memórias que
deveriam ser mais completas.
O mundo hoje acordou errado
concluí.
Eu estou aqui, e você aí.
______________
Onishiroi Shonin
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