domingo, 21 de abril de 2019

A praia branca

O dia está tão lindo
que os autoproclamados locais
tiram foto com o sol.

Como se ele não estivesse sempre ali.

Os pais brincam com as crianças
na areia fofa, no mar calmo.

Nenhuma preocupação,
nenhum temor,
sob as barracas amplas,
pos aqui, nesta aqui,
a caravana não vem.

Os homens mal camuflados
com suas siglas de consoantes
garantem isso.

O dia está tão lindo...


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 10 de abril de 2019

As águas de Abril

Nós tentamos sorrir para o tempo
mas não deu tempo.
Veio a chuva forte
e acabou com a mentira de um ano
inteiro.

Uma chuva atípica, incomum
daquelas que acontecem quase
três vezes por ano
na mesma estação.

Nós tentamos fugir, correr do tempo
mas não deu tempo.
Veio a chuva forte
na pedra mole
e a derrubou.

Uma chuva atípica, como sempre.

E eu, que queria escrever poemas
de alegria, risos e amor
escrevo mais um poema trágico
datado, que perderá sentido
quando esquecida a tragédia.

Ao menos, até o ano que vem.


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Onishiroi Shonin

sábado, 6 de abril de 2019

Atrito

Porque quando movo os olhos
da esquerda para a direita
eles perdem velocidade
ao passarem por você.

Porque quando ando, atravessando
a invisível resistência do ar
paro, torno-me imóvel
quando passo por você.

Porque a constante vibração
das palavras múltiplas humanas
prende-se em meus sentidos
quando ditas por você.

Porque minha mente caótica
no contínuo devir de pensamentos
foca-se. Em uma única ideia.

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Onishiroi Shonin

terça-feira, 2 de abril de 2019

Uma prosa sobre o tempo

Escrever poemas é difícil. Já escrevi sobre isso em poemas. Mas não em prosa. E, fato, eu prefiro em verso. Mas as vezes é preciso prosear. Tem coisas que não podem ser ditas em verso, ou são, ao menos, difíceis. A prosa tem certa clareza e objetividade (quando não é Nietzsche que escreve) que a poesia, habitualmente, não tem (exceções se aplicam, inclusive minhas). E eis que tem algumas coisas sobre escrever poemas que tenho tido vontade de falar... mas apesar de ter muitos versos sobre, achei que faz sentido fazer uma prosa. Principalmente para quem me fala que quer escrever ou que escreve. Ou só tem alguma curiosidade sobre como funciona minha louca louca mente.
Eu comecei a escrever em 2001. Como a maioria dos poetas iniciantes, guardei quase tudo escondido do mundo. Mas um dia minha professora de redação viu. E disse que gostou. E a professora de arte. E os professores de história. E a garota que eu gostava. E... vou te ser sincero, quando leio esses primeiros poemas, eu agradeço os seres humanos serem capazes de mentir para agradar os outros, porque eram poemas horríveis. Mas essas pessoas me estimularam a continuar, e a mostrar o que fazia. E o que se segue disso... são coisas que eu gostaria muito de saber quando comecei, e só agora, uma vida depois, começo a entender. E são coisas que acho que cabem dizer.
Eu achava que poemas eram sobre palavras, vocabulário, métrica, rimas. Que poema era soneto. Ou epopeias. Hai-kais. Vinícius, Shakespeare, Pessoa. E.... em parte, é. Mas nada disso faz um poeta, ou, melhor, um poeta não faz nada disso. Escrever um poema encaixando palavras e sons é... possível. Mas não faz um poema, nem faz de quem faz um poeta. Não mais do que empilhar tijolos faria de um engenheiro um artista. Forma é importante. Mas arte... arte é um outro treco.
A maior parte de escrever um poema, ao menos para mim, é “olhar” o mundo ao meu redor com “olhos de poeta”. Observar o mundo e não somente tropeçar em, mas ativamente procurar versos. Assim, sem que eu percebesse, passei de uma criança que escrevia sobre o tempo, o amor e a felicidade, para uma criança um pouco mais esticada que escrevia sobre rosas que cresciam no asfalto, sobre as luzes do trânsito, o ar-condicionado que parava de funcionar... e sobre o tempo, o amor e a felicidade.
E sobre papel. Eu tenho muitos poemas sobre papel.
Essa forma de olhar para o mundo é... algo complexo. Se me perguntarem como aprendi, não sei dizer. Se me pedissem para ensinar, não saberia como. Mas eu sei que pode ser praticado. É como o olhar filosófico. Se você decidir que vai fazer isso, e se mantiver fazendo continuamente, eventualmente será difícil parar de fazer. E então os poemas surgem das coisas mais triviais e mais incríveis, como uma hora que a luz foi apagada e viu-se o reflexo de outra janela, ou de quando o trem bateu no poste. Se você fizer isso... o resto é fácil. Mas ISSO é difícil. Bem difícil. Difícil o suficiente para que seja algo como atravessar o impossível.
E, por isso mesmo, escrever é importante. Porque a experiência de ver essa coisa maravilhosa no trivial é extasiante. E a arte é uma forma de trazer essa experiência de volta para quem não a teve. E, frequentemente, com resultados diferentes para cada um. E que bom, adoro quando veem nos meus poemas algo que eu não tinha visto. Torna eles vivos, reais. Mais reais que eu mesmo talvez.
Mas... escrever é difícil. Quando comecei esse blogue em 2013 eu fiz, ao longo do ano, 53 publicações. Nem todas poemas. Em 2014 foram 29, depois 25 em 2015 e somente 11 em 2016.
E então eu parei. Não parei somente de publicar. Eu parei de escrever. Eu simplesmente não conseguia “ver”. Me deixei ser arrastado pelo prático, pelo necessário, pelo concreto. Quando colocava uns versos quaisquer no papel, achava-os horríveis e abandonava a ideia. À quem me perguntava, dizia que o poeta estava morto, e que talvez nunca mais escrevesse. E falava de outra coisa, como política e economia.
Então... então eu fui em um show do Nando Reis na rua. E fiquei na cara dele. E ele cantou, uma das primeiras vezes que o fez pelo que sei, “Rock ‘n’ Roll”. E daí... daí que voltei a ver as letras de Caetano e de Chico, a reler meus poetas favoritos (obrigado Fabio Rocha), meus próprios poemas favoritos e... a escrever poemas. E de uns tempos para cá, escrevo quase todo dia. Não, eu não publico tudo. Eu demoro para achar bom o que escrevo.
Para que então esse discurso longo e errático. Bem, porque também voltei a conversar com pessoas que escrevem. E essas pessoas me dizem que o que escrevo é bom, mas que tem tido dificuldade para escrever. Porque o mundo adulto é real para todos nós. E, como foi para mim, se veem deixando morrer dentro de si esses olhos que tudo veem no mundo.
Escreva. Se quiser escrever, escreva. Se não achar bom, escreva do mesmo jeito. E continue escrevendo.

Uma hora, os olhos se abrem, e torna-se impossível não ver. E aí dá para escrever até sobre política e economia.


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Onishiroi Shonin

Centro urbano

Mataram a grama
e cercaram as árvores.
Tiraram as cores do mundo
e "criaram" um bilhão para a tela.

Trocaram estrelas
por luzes de helicóptero
quando
(também)
mataram a noite.

No desespero da busca
por algo de natural e humano
tranquei-me no breu.

Entra pela janela uma luz,
mas não é da lua.
Somente a luz
de outra janela.


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Onishiroi Shonin

domingo, 24 de março de 2019

Você

Deitei mais uma vez meu coração
no leito de papel, em verso.
Admito, que meus dedos, lentos
estavam cansados das mesmas letras
do mesmo tema
do mesmo sangue.

Mas... mais uma vez.
Não foi escolha, foi tão simples...
uma folha de papel, uma garrafa de vinho
e um tanto de espaço vazio.

Uma poeta me disse, sem me olhar
que poemas deveriam ser profundos
deveriam ser grandes, deveriam ser sobre
Hiroshima. Ou Auschwitz.

Não nego que entendo, e tentei.
Até escrevi sobre a rosa cálida,
sobre o exílio e sobre a neve.

Mas poemas deveriam ser profundos,
deveriam ser grandes, deveriam ser sobre
você.

Mais uma vez, deitei meu coração
no leito de papel, em verso.

Se nada mais, talvez
talvez
nessa noite eu durma em paz.


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Onishiroi Shonin

quarta-feira, 20 de março de 2019

Vir a ser

Olho fixamente a folha branca.
Dizem-na branca, mas tem linhas azuis.
Dizem-na branca, mas talvez devesse ser
alva?
pela forma como é feita.

Olho fixamente a folha branca.
Procurando,
esperando?
as palavras em tinta preta caírem
surgirem?
brotarem?

Mordo a caneta
despejo a tinta
sem saber como
porque?

Nasce o caos
na ordem alva.


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Onishiroi Shonin

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Um poema sincero

A verdade é que não foi perfeito.
Claro, eu lembro da felicidade
e de ter feito você sorrir.
Mas a verdade, a verdade é essa.

Eu era falho, e errei muito.
Se algo, se fiz certo algo
foi quando prometi não poder
prometer nunca lhe tirar lágrima.

Eu sabia, ao menos, que era falho.

Ao menos isso. Pois de resto...

Houve alegria. E amor.
Ainda hoje minha memória por
vezes
perdura sobrevoando um momento
um dia, uma semana, um mês
que pareceu perfeito.

Mas não foi perfeito.

A verdade é que eu quebrei tudo.
Acreditei que não eram falhas,
era aprendizado. Acreditei
que iria ficar melhor.
Que eu iria ser melhor.

Mas eu era falho. Tão falho
que acreditei não ter mais
como.

Assim quebrei o que era imperfeito.

Oh, céus. Como eu era falho.

Em minha loucura, minha imperfeição
não vi o que fazia.
Eu destruí a causa da lágrima
junto com a causa de cada sorriso.

A verdade é que não foi perfeito.
Mas havia felicidade,
e agora

não há nada.


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Onishiroi Shonin

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Desastre

Foram dias vermelhos
dias de desastre.

A água veio enfrentar o homem.
Veio também a terra
e o fogo.

Houve o inevitável
e o absolutamente evitável.

Até mesmo a fatídica piada pronta
aquela que está sempre ali
veio também.

No sábado, como sempre
o sol se ergueu languidamente
e fez praia.

Ainda havia luto, certo que sim
mas não dispensamos a praia.



______________ Onishiroi Shonin

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Rosa de barro

Rompeu a barragem.

Para alguns não houve sangue
somente números vermelhos da bolsa.

Para alguns não houve crime
somente o risco calculado, instável.

Para alguns não houve ajuda,
só política.

Não houve multa,
não houve nada.

Ah, mas houve, houve sim.
No mundo que os homens de terno não vêem
houve morte, houve dor, houve esquecimento
desaparecimento.
Houve lama.

Então não se esqueça,
da nossa rosa, a nossa
não-atômica,
rosa de barro, rosa de mata-rios,
não se esqueça, não se esqueça
da rosa de Mariana.

Como assim? Como assim?
Uma nova rosa?
Um novo jardim?

Mais, maior, pior e mais forte?


______________ Onishiroi Shonin