sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Rosa de barro

Rompeu a barragem.

Para alguns não houve sangue
somente números vermelhos da bolsa.

Para alguns não houve crime
somente o risco calculado, instável.

Para alguns não houve ajuda,
só política.

Não houve multa,
não houve nada.

Ah, mas houve, houve sim.
No mundo que os homens de terno não vêem
houve morte, houve dor, houve esquecimento
desaparecimento.
Houve lama.

Então não se esqueça,
da nossa rosa, a nossa
não-atômica,
rosa de barro, rosa de mata-rios,
não se esqueça, não se esqueça
da rosa de Mariana.

Como assim? Como assim?
Uma nova rosa?
Um novo jardim?

Mais, maior, pior e mais forte?


______________ Onishiroi Shonin

domingo, 6 de janeiro de 2019

Um acidente

Era para ser uma noite daquelas
meio esquecíveis, aleatórias.
Ao menos, assim tudo indicava
entre o cheiro de chuva e o calor
que eram para o verão, normais.

Eu estava quieto, calmo, só,
salvo do mesmo eterno amigo
companhia, uma garrafa de vinho.

Era para ser uma noite daquelas
que nem se chamam normais
pois esquece-se, perde-se,
apagam-se na memória, tão iguais.

Mordi o lábio inferior contudo.

De assalto, súbito me veio
o gosto, a dor, o cheiro
a memória do seu beijo.

______________
Onishiroi Shonin

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Uma nova era no Brasil

Talvez eu devesse abandonar o verso
render-me a forma bruta, disforme,
da palavra direta, atirada, disparada,
como quem faz do dedo metralhadora,
arma.

Talvez devesse aceitar que o mundo
mudou.
Seguiu adiante, aceitou, virou
algo mais duro, obtuso, ríspido.
Meio sem graça ainda que cômico,
ou desesperador.

Talvez também não seja para tanto
eu somente esteja exagerando,
e fosse mais fácil não parar
mas simplificar, talvez um pouco
mais simples
fique compreensível.
Talvez, se fosse algo assim

menino veste azul
menina veste rosa
Damares acha que lacrou
eu acho que só fala bosta.

Talvez... talvez assim.

______________
Onishiroi Shonin

domingo, 2 de dezembro de 2018

Meu caro amigo


Meu caro amigo me perdoe a demora em responder
tanto tempo faz a sua última missiva.
Muita coisa aconteceu nesse Brasil a efervescer
entre escândalos e gritos de viva.

Imagino que tenha lido já em algum jornal
que verde e amarelo é o novo preto.
De moda sabe que eu entendo mal e mal
mas Marieta disse que não pode mais vermelho.

Felizmente ainda o futebol é emoção
mas jogador virou bem de exportação.
Soube de reforma no nosso maraca
mas por segurança só as fotos vi de casa.

Aos sábados ainda tem aquele samba do ouvidor
a mesma cerveja aguada, a cachaça ainda amarga,
mas o povo vai dançando para se esquecer da dor
e vai tecendo o dia a dia uma piada.

O Francis me pediu para lhe mandar lembranças,
infelizmente veio a dengue e nos levou as crianças.
Espero mesmo que desta vez a minha carta chegue a ti
soube que pararam os roubos de carga por aqui.

Sinto saudades da nossa prosa pela orla a debater
espero que possamos novamente antes do toque de recolher.
Não se preocupe é mais seguro do que parece na tevê
desde que se lembre de ao rojão ter que correr.

Fora isso tudo na mesma, com a graça do senhor,
do seu velho amigo, como sempre com ardor.
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças,
e a todo o pessoal.
Adeus!

______________ Onishiroi Shonin

domingo, 25 de novembro de 2018

Enquanto a censura não vem

Me falaram que era pela segurança
que quem mata quem mata
não precisa explicar porque mata.
Que eu teria o direito de uma arma
para ser a insegurança
de quem ofende a minha segurança
pois quem atira primeiro é mais
seguro.

Me prometeram lutar contra o inimigo,
o apontaram, o pintaram, o prenderam.
Mas continuam lutando contra o inimigo
que eu não tenho certeza direito do que fez,
nem sei se amanhã serei eu mesmo um,
ou meu próximo, minha próxima,
o mais terrível vilão que
fez algo. Algo.

Me juraram, Brasil acima de tudo!
Logo também venderam uma parte para
quem fizesse o maior preço.
Chamaram alguém para me ensinar sobre
o Brasil. Soube que veio de fora.

Falaram que o lema era a verdade.
A verdade nos libertará.
Mas com tanta contradição, aonde está
a verdade?
Talvez a verdade seja a coerência de quem
hoje
teme que amanhã
será preso por falar a verdade.
A verdade nos libertará.

Em espírito, talvez.

Me falaram que não devo temer,
que a democracia é forte.
Me falaram tanta coisa,
que estou já esperando como vão
me enganar dessa vez.


______________ Onishiroi Shonin

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Escrito no asfalto

Eu ando pelas ruas da cidade.
Um guarda-chuva me protege do céu
o asfalto me protege da terra.

Eu ando pelas ruas da cidade.
Couro caro nos pés,
risca de giz em minha roupa.

Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado por seu som morto
de rodas que giram cavalos,
chuva que bate sem poder correr.
Céu cinza chumbo.
Chão cinza escuro.

Eu ando pelas ruas da cidade.
Cercado pelos espíritos que
similar à mim
passam.
Cabeças baixas, expressões severas.
Parecem atentamente buscar
nas pedras portuguesas uma fora de lugar.

As vezes, cruzam comigo o olhar.
Espantam-se, olhos arregalam.
Vêem meu sorriso e sei, no fundo
que se perguntam o que não viram
o que se revelou a mim.

Eu ando pelas ruas da cidade
enxergando poemas escritos
pelas gotas de chuva que caem
no meu rosto cansado,
e feliz.


______________ Onishiroi Shonin

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A eleição que nunca acabou

Nem acabará provavelmente. O que, pasmem, é a melhor notícia desde que ela começou. O Brasil é um país democrático, sob um modelo de presidencialismo de coalizão. Calma, sei que não está escrito na nossa constituição a palavra coalizão, mas neste texto isso não é um palavrão.

Nosso país não tem tradição democrática. Como resultado, frequentemente nossa noção de democracia é, no melhor dos casos, vaga. E isso faz todo sentido porque, além de termos uma democracia jovem, a maioria das relações pessoais não é democrática. Alguns costumam chamar a democracia de “ditadura da maioria”. Outros de “governo da maioria”, com quase o mesmo sentido.

Infelizmente, ambas as definições são imprecisas.

Democracia é governo do povo. E neste caso, por “povo” entende-se o conceito mais amplo de povo que possa ser aplicado em uma nação. Isto é, TODO o povo. Um governo ou ditadura da maioria seria, mal comparando, se Israel com seus 81% hebreus decidissem que os 19% árabes (censo de 2006) não tem direito a voz ou voto. Mas, como são democráticos, os árabes (por nota gente, árabe é um grupo étnico, não uma religião, tá? E, nesse contexto, hebreus também, caso não saibam) possuem voz, voto, representantes no parlamento (a Joint List, nome da “coligação” dos quatro maiores partidos representantes dos árabes, possuem 13 das 120 cadeiras no “congresso” deles, que é unicameral, cerca de 10,3%). Óbvio, a realidade é muito mais complexa e o povo de Israel não se distingue em A ou B, mas serve para dar um exemplo simplificado. Muito simplificado. Desculpa qualquer coisa.

Contudo, novamente, no Brasil costuma-se entender democracia como ditadura da maioria. E agora cabe descrever porque somos um presidencialismo de coalizão. Nosso presidente não tem poderes corruptíveis. Ou, melhor dizendo, tem bastante poder, até corruptível... mas outras instituições possuem bastante poder para equilibrar. Se um presidente decide passar uma medida provisória sem nenhum diálogo com o congresso ou com a população, o legislativo simplesmente pode ir lá e derrubar isso. O presidente também pode tentar vetar algo colocado pelo congresso. E se os dois ficarem de mau um com o outro, podem passar a vida inteira um vetando o trabalho do outro e sem ir a lugar nenhum.

Para trazer para um exemplo próximo da vida (sim, eu adoro exemplos), considere as relações que costumam haver na sua vida. Se uma pessoa jovem e seus pais precisam tomar uma decisão conjunta, o peso da vontade dos pais é muito mais forte, podendo eles simplesmente ignorar a opinião do mais jovem, ou nem mesmo consulta-lo. Em uma empresa, em uma escola, e na maioria das instituições, o poder é exercido de forma similar, verticalizada, na qual o topo sempre tem o poder decisório sem a necessidade de sequer consultar o que há abaixo. E as pessoas costumam com esse hábito pensar que o governo funciona assim. Mas a realidade é mais perto do que ocorre quando você e três amigos decidem pedir uma pizza. Os quatro vão debater sabores, um vai oferecer argumentos para o outro, algum vai ceder que não tenha o sabor que ele queria em troca de também não ter Aliche que ele não come (eu conheço uma pessoa cuja pizza favorita é de Aliche. Me diga se você também tem esse def... peculiaridade). No fim, será pega uma pizza meio a meio que talvez não deixe ninguém ABSOLUTAMENTE feliz, mas também não deixe ninguém ABSOLUTAMENTE infeliz.

A pizza não é escolhida somente com o voto binário de cada um. As opiniões são jogadas na mesa e trabalhadas. Frequentemente grupos muito heterogêneos demoram horas para pedir uma pizza, grupos mais afinados o fazem com uma agilidade invejável. E o presidencialismo de coalizão é mais similar a isso.

O presidente não pode forçar a mão e fazer o que quer. Mesmo quando se tem uma aparente “maioria” da câmara, essa maioria significa 42 senadores e 257 deputados (para maioria simples). Ou seja, mesmo que você tenha na composição desse número seus 299 melhores amigos, deve ser difícil pedir uma pizza... e tem que lembrar que a outra metade também vai pagar pela pizza e, graças a questões maravilhosas como quórum mínimo, mesmo a minoria, se decidir bater o pé, consegue tornar o governo um inferno (é tipo quando tem aquela pessoa que bate o pé e diz que se vier uma pizza com camarão mesmo em uma fatia ele não vai pagar porque é alérgico. Super apoio essa opção, eu não gosto de camarão).

Assim, o presidente, para governar, é obrigado indiretamente a formar coalizões, grupos que consigam chegar em consenso. Esse consenso normalmente tende a ser algo que não era aquilo que a maioria queria, porque teve que conceder algo para a minoria, nem o que a minoria queria, porque acaba tendo que aceitar algo da maioria e, sim, a maioria fica com mais força para trazer esse meio termo mais na sua direção. Mas daí a atropelar a minoria como se não tivesse voz, simplesmente não consegue.

E nisso eu chego ao futuro presidente. Eleito com 55% dos votos válidos (não vou entrar no mérito de quantos isso realmente são de população e tal, a discussão sobre a presença nos votos e tal fica para um outro texto), já nasce em uma população dividida. Adicionalmente, apesar de, como muitos estão falando, ter na mesma eleição uma inclusão de vários membros do seu partido e outros aliados na câmara, não tem nisso, ainda, uma representação realmente forte. Muitos membros eleitos e/ou aliados são pessoas que chegaram no partido na última hora, ou aliados declarados de última hora. E você pode ter tido uma conexão muito legal com aquela pessoa nova, mas só vai saber mesmo quando fizerem o teste de rachar a conta do bar.

E nisto, fico feliz pela eleição ainda ser um tópico de debate. Feliz porque, como um país de pouca tradição democrática, o povo frequentemente esquece que também faz parte do governo. Como somos nós que pagamos a pizza, mesmo quando não estamos lá dando o voto do “sim/não” no sabor dela, quando fazemos barulho contra ou a favor de algo, os votados são obrigados a lembrar que se irritarem suficientemente a população simplesmente não estarão lá dentro na próxima rodada. Isso foi algo interessante da eleição recente em que muitos membros do legislativo não conseguiram reeleição, que antes era algo bem normal. Mostra uma parte da evolução da memória, e da relevância de colocar o debate em voz alta. Esse mesmo som ajuda a alterar detalhes numa dita legislação antes do voto definitivo, ou mesmo sua aprovação.

A continuidade do debate, seja você de direita ou de esquerda (nota mental, também preciso falar sobre isso um dia) é um bom sinal, de que política pode vir a se tornar uma parte da conversa do dia a dia fora das eleições e ser removida do rol de coisas que não se debate, com o qual nunca concordei mesmo (filósofos não perdem uma oportunidade de discutir política ou religião. E futebol é política). Claro, como todo parto, todo início, o momento atual é difícil. O debate ainda parece mais discussão e menos desenvolvimento de ideias, enquanto ainda há muita gente querendo provar estar certa ou errada, ignorando que o mundo não é binário. Mas é um começo. A oposição tem voz sim, e tem que ter, e a posição tem que ouvir sim, e negociar sim. Para isso, é importante que todos participem de forma propositiva, e não simplesmente fincando o pé. Se tiver uma opinião, fale, seja ouvido, e ouça de volta. Talvez assim, daqui a dois anos, no próximo pleito, as pessoas estejam mais treinadas no diálogo político e tenhamos uma eleição mais saudável e menos... seja lá que nome damos para o que aconteceu nas últimas semanas.

______________ Onishiroi Shonin

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Star wars Rogue one – Review (SEM spoilers)



Star Wars Rogue One talvez seja o filme que você sempre quis ver em star wars, ou talvez seja o exato oposto. É um grande filme, sim. Não o melhor filme, embora tenha seus momentos. Definitivamente um filme que vale a pena ser visto, seja você fã da saga ou não. Contudo, talvez pela abordagem mais séria ou por sua história bem distinta das quais já estamos acostumados, ele não atinja todos da mesma forma. É importante que fique claro: Rogue One é uma história diferente de todas as outras já contadas.
Todos que já viram os filmes originais de star wars sabem que a estrela da morte existe, e que é destruída graças a um ousado plano de ataque rebelde, que só pode ser realizado graças a vários “Bothan spies” que morreram para conseguir os planos da base. Bem, talvez este seja o primeiro ponto que me incomodou no filme. Acredito não ter visto nenhum Bothan. Mas eu divago. Rogue One acerta em vários outros pontos, efetivamente corrigindo o que muitos sempre consideraram falhas no Uma nova esperança. Explica-se o porque do ponto fraco da estrela da morte, entre vários outros pontos interessantes. Mas essa é a parte do filme que você já sabe que vai encontrar antes mesmo de sair de casa para ir ao cinema.
A parte realmente excelente de Rogue One é mostrar a aliança rebelde de uma forma que até então não havíamos visto. Uma aliança conturbada e suja, com personagens que discordam entre si, com métodos diversos. E, principalmente, com um histórico tão tenebroso como... bem, como rebeldes costumam ser. Afinal, o império os denominou terroristas, dos tais que justificassem a construção de tal poderosa arma. E neste filme vemos um pouco disso. Homens e mulheres dispostos a realizar atos não tão heróicos para o objetivo de vitória da rebelião. Mais que isso, Rogue One tem a liberdade de mostrar um lado que não tivemos acesso da galáxia. O lado no qual os rebeldes e o império lutam de verdade, com baixas em ambos os lados (e stormtroopers que acertam até com certa regularidade). Ah, e eles acertaram as joelheiras dos stormtroopers.
Uma questão gerada por esta abordagem é que este filme é definitivamente mais pesado que os outros até então. Mesmo com as eventuais brincadeiras e alívios cômicos, o filme é tenso. O conflito é uma constante, blasters parecem soar por quase todo o filme e, de forma geral, sente-se uma tensão que não havia nos filmes anteriores. Um enorme feito, uma vez que já sabemos o final desta história quando ela começa.
Se o clima do filme é seu ponto alto (para quem estava como eu ansioso para assistir esse lado da história), a execução me deixou alguns desagrados. A velocidade e o conflito constante torna difícil sintonizar com e entender bem as personalidades envolvidas. A maioria dos personagens principais até descreve relativamente bem suas motivações, mas isso ocorre de forma meio forçada e mecânica, sem grandes momentos de interação calma e pacífica para vermos sua sintonia, como ocorre por exemplo em guardiões da galáxia. Por estarem quase sempre em uma situação extrema, vemos mais a forma como eles resolvem seus problemas do que a razão de serem da forma que são, e assim é difícil efetivamente importar-se com o que vai ou não ocorrer com cada um. O fato de estarem em uma situação que envolve muitos extras ao seu redor também ajuda em impedir essa sintonia, pois sempre existe algo mais ocupando nossa atenção e impedindo de focar em um ou outro personagem.
Aliás, falando em focar. Como habitual, o 3D, pelo menos o padrão, é péssimo. Não posso falar pelo real 3D ou pelo IMAX, mas se for escolher, prefira a película convencional. Apenas serviu para tornar o foco pior, como normalmente ocorre em filmes que não foram 100% focados no efeito 3D.
As atuações são “ok”. Alguns atores são excepcionais, outros nem tanto. Não tivemos desta vez uma atuação absurdamente incrível como a de Boyega, mas tivemos uma média bem boa. A personagem principal deixou um pouco a desejar na minha opinião, ao menos nos momentos de maior emoção. Alguns outros personagens (inclusive o dróide) por vezes roubavam a cena dela, mas isso pode ser tolerado.
Como ocorreu com o último filme, Rogue One consegue ter um elenco sem cor definida, com caucasianos, mestiços, asiáticos e negros espalhados de forma que qualquer um que diga que o filme tem “cotista” está precisando rever seus conceitos. Também existe uma prolixidade de sotaques, extremamente válida para um grupo tão diverso.
O filme encaixa vários cameos ao longo da história, muitos deles bem colocados. Assim como no filme do ano passado, quem está ciente dos outros enxergará um fan service, e quem não viu nenhum filme não os estranhará como cenas excessivamente forçadas (ao menos, não em sua maioria). Como todos já viram no trailer, sim Darth Vader aparece e sim, ele é foda nesse filme.
Aliás, muito foda. Talvez a melhor cena dele em toda a história esteja nesse filme. Isso vocês me dizem depois quando spoilers forem permitidos.
Os efeitos são limpos e bem feitos, sem nada muito forçado. É especialmente digno de nota que alguns personagens foram feitos inteiramente por CGI uma vez que envolvem pessoas que aparecem no IV e ou estão em outro plano de existência ou não possuem mais a mesma aparência da época, e estes efeitos foram feitos com qualidade que creio que uma pessoa não obcecada por efeitos e que não saiba de antemão quem foi feito desta forma não perceba. Apesar de que, obviamente, a “atuação” destes personagens é de longe “inferior” a média do filme.
O filme também é rico em pequenos detalhes, que podem passar despercebidos. Vários momentos envolvem reações sutis que fazem sentido se estiver prestando atenção, e eles tornam muitas cenas mais interessantes e críveis. Esteja atento.
Agora, tomando por outro ponto, Rogue One tem uma grande vantagem. Não é somente um filme de star wars. É um filme de guerra. Nesta linha, Rogue One não deixa nada a dever para o típico exemplar da espécie. Isto considerado, também possui cenas de ação extremamente bem feitas, sem o uso de movimento rápido de câmera para realizar a ação. As cenas são bem feitas, em sua maioria críveis e adequadas. Qualquer fã de ação ou de filmes de guerra convencional se sentirá a vontade com este filme, assim como o típico fã de star wars. O mais interessante, contudo, é sua conclusão diretamente conectada ao filme IV. Bem verdade, se o filme não exibisse os créditos e continuasse diretamente no IV poderia enganar alguém como um único filme... bem, salvo a qualidade de imagem, claro. Para quem NUNCA viu nenhum star wars, eu recomendaria agora começar por este, que torna a história de Uma nova esperança mais... tangível.
Por fim, na lista de efeitos sonoros... bem, não acho que vá ganhar um Oscar neste quesito. A trilha sonora original é interessante, mas não possui o tom épico esperado. Claro que competir com Jhon Willians é complexo mas... a trilha sonora tenta aproximar-se da original o bastante para incomodar. Por vezes escuta-se um arranjo que remete a alguma música antiga e então percebe-se a diferença. Sinto que seria melhor ter algo completamente original ou algo completamente igual. Tentar ter a referência sonora do original talvez tenha sido um erro.
Como recomendação geral? Veja o filme. Se ele não é tão grandioso quanto foi o Despertar da Força, é muito mais crível que este. Considerando minha irritação com a quantidade de momentos em que a barra foi forçada no filme VII, Rogue One é um agradável alívio em um filme que em sua grande maior parte faz sentido. Um bom filme, digno de ser visto no cinema, mas não um magnífico filme para fazer as pessoas chorarem de saudade.

Ja-ne. Nenhum espião bothiano foi ferido neste review.

______________ Onishiroi Shonin

sábado, 25 de junho de 2016

Troopers da morte – Resenha



Recentemente (tipo, ante-ontem) acabei de ler o livro Troopers da morte. Um livro da série legends no cenário de Star Wars. Para quem não sabe, a designação “legends” informa um livro ou conteúdo no cenário de Star Wars que não faz parte da história “oficial”, também chamada de cânone. O livro tem a assinatura de Joe Schreiber, autor habitual de livros de horror. Este é meu primeiro livro do autor, então não tenho uma referência para compará-lo aos outros livros do próprio. Contudo, é longe de ser meu primeiro livro de terror ou primeiro legends de Star Wars. Li o livro em sua versão impressa, na língua portuguesa, tradução de Caio Pereira e publicado pela editora Aleph. Enfim, ao livro. Não fornecerei nenhum spoiler, quase tudo aqui está na sinopse, salvo alguns poucos detalhes que não são impeditivos da apreciação da trama.
Primeiro é preciso comentar a qualidade da impressão. Nisto a editora Aleph nunca me decepciona. O livro é impresso em papel de qualidade (Polen Bold 70g), sem nenhuma falha na diagramação. Neste, como em todos os livros da editora que li até o presente momento, não identifiquei nenhum erro de ortografia ou falha no alinhamento dos parágrafos ou outro tipo de erro na revisão, assim como nenhuma folha danificada ou erros de impressão. Adicionalmente, a arte de capa do livro é sensacional. Internamente o livro possui alguns pequenos detalhes significativos, como a imagem utilizada para cada novo capítulo. Apesar de ser sempre a mesma imagem, adiciona um toque interessante ao efeito do livro. Por fim, o livro vem com o próprio marca páginas, um pequeno sabre de luz de papel.
Vamos então falar da história em si. A sinopse do livro deixa claro sua proposta. É uma história de zumbis no universo de Star Wars, que ocorre durante a existência do império, antes dos eventos de uma nova esperança. Uma nave prisão quebra no meio de uma viagem até um planeta prisão, encontra um cruzador imperial abandonado e um grupo vai investigá-lo procurando partes para o concerto da nave. No meio do processo um vírus se espalha e pessoas começam a passar mal. O tipo de zumbi utilizado no livro – que mundo vivemos em que podemos até classificar tipos de zumbis e infecção original – é do vírus que se espalha pelo ar, mata e transforma em zumbi. Nisso entra o primeiro momento complicado do livro, no qual os personagens principais são simplesmente imunes a infecção via aérea por... porque sim. Ok, se o autor escolhe esse tipo de infecção ele meio que fica obrigado a utilizar esse recurso, mas não deixa de ser uma situação forçada. Que seja. O livro evolui relativamente bem no início, com bastante trabalho na tensão. Contudo, em um indeterminado ponto no meio do livro as coisas se aceleram e ficam mais distantes do conceito de horror e mais próximas de um livro de ação. As coisas ficam “claras” muito rápido, de forma que é difícil ser impactado pelo horror do livro. Em algum lugar isso se perde e, embora eu possa reconhecer que os PERSONAGENS estão com medo, eu mesmo não senti nenhum incômodo. Talvez as minhas referências em Edgar Allan Poe e Stephen King tenham me imunizado de livros do gênero, mas o típico suspense e nervoso que tenho ao ler um livro desses autores não foi sentido nesta obra de Joe Schreiber. Como disse, por ser a primeira obra dele que leio, não posso dizer se chega a ser uma falha do autor, pois o universo utilizado talvez seja pouco propenso ao gênero. Contudo, houve algumas escolhas do autor que eu considero que poderiam ser mais eficientes para o tema. Um é  o uso dos zumbis “modo horda” ao invés de isolados. Regra geral, um monstro dá medo. 30.500 monstros, não. Eles se tornam comuns, e eu eventualmente não via mais problema em ter um mar de zumbis constante seguindo alguém. Segundo ponto que não gostei foi a introdução de alguns personagens famosos de star wars. Por mais que seja um elemento... interessante, é difícil inserir os personagens escolhidos no contexto do medo. Entre outros, você sabe que estes personagens são imortais, a prova de blasters e não sofrerão sequer um arranhão que poderia deixar uma cicatriz neles, o que impede a imersão. Por fim, a história tem uma série de elementos “Ex Machina”. Inúmeras vezes, entre os mais de 30.000 zumbis – considerando a tripulação de um cruzador imperial – aparece justamente o que tinha um contexto com os sobreviventes antes da infecção. E em algumas situações isso é simplesmente feito de formas impossíveis. Muito impossíveis. Absolutamente impossíveis. E isso gera descrença que, mais uma vez, afasta o medo.
Apesar disso, removido a consideração de “livro de horror”, e considerando um livro de ação, a história chega a ser bem interessante, com momentos bem emocionantes. Os personagens são bons e evoluem bem, apesar de um deles ter uma evolução muito rápida no meu gosto. A maior parte das decisões feitas pelos personagens é condizente com suas personalidades e críveis para as situações, mesmo considerando os momentos ex machina. Lendo sob esta ótica o livro é bom. Não sensacional, mas bom o suficiente para proporcionar um tempo agradável, com alguns momentos muito bons, mesmo que não o suficiente para tornar o livro um espécime singular.
A conclusão do livro, talvez, seja o ponto que força ele para o campo do regular. Como ocorre com muita freqüência, após construir uma trama tensa e com muitos nós, a solução final é meio “simples”, como se o autor percebesse que alcançou a quantidade de páginas pretendida e simplesmente precisasse encerrar em três capítulos do jeito que fosse. Mesmo assim, o final é bem interessante e satisfatório. O epílogo, em bem verdade, foi um dos meus momentos favoritos no livro, digno de uma história épica, o que aumentou um pouco minha consideração.
Concluindo, Troopers da morte é um livro bom, apesar de falhar na proposta de gênero original. Recomendaria principalmente para quem gosta de livros de ação. Eu daria uma nota de 6/10 para o livro, bom o suficiente, mas não espetacular. Compre em uma promoção e valerá a pena, mas não precisa correr para fazê-lo.

Ja-ne. Até a semana que vem devo acabar a leitura de outro livro, a Lenda de Ruff Ghanor, e informo o resultado.

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Onishiroi Shonin

terça-feira, 7 de junho de 2016

Um poema rápido

Deixe-me contar uma coisa rápida.
Tem que ser rápido, muito, muito
rápido. Porque nesse momento
bem ali perto, talvez,

uma pessoa lamuria-se numa mesa de bar
alguém encontra o amor da sua vida
e outra perde definitivamente o seu.

Alguém certamente chora esse momento
ou apenas talvez penteie o cabelo.

Pelo menos para alguém, sei
este momento é e foi
o momento mais importante
de toda sua vida.

Era só isso.

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Onishiroi Shonin