segunda-feira, 23 de março de 2020

Passeio noturno

Passeei pela cidade a noite
por um lugar aonde não fomos.
Gosto de caminhar perdido
com os pés no ar e sem pensar.

Eu vi as luzes da cidade
e as pessoas que não dormem
procurando na noite algo.
É estranho, porque eu
não procuro nada.
Só acontece de, esta noite
eu ter passeado sozinho.

As vezes eu faço isso.

Meus pés perderam-se
e meus olhos encontraram
uma flor linda, que queria,
queria muito, admito,
ter mostrado para você.

Na próxima vez
devemos ir juntos.
Isso vai tornar a flor
ainda mais bela.


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Onishiroi Shonin

domingo, 8 de março de 2020

Um verso em azul

Ao som da água, do cheiro,
capturou com o olhar
(mesmo que um pouco desfocado)
um verso no ar.

Um verso em movimento, em cor.
Um verso não escrito que
acontecia.
Um verso no mar.

Em uma sala vazia, coberta
de luz, que não foi feita para ver
mas para sentir, para ser,
um verso no luar.

Um verso em azul
ela era, sendo, vivendo,
com seu sorriso branco,
um verso do amar.


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Onishiroi Shonin

domingo, 1 de março de 2020

A mulher na estrada

Existem mulheres na estrada também
que cantam histórias de superação
de crescer num mundo com febem
e ainda ter forças para serem mães.

Mulheres sempre em pé, levando na mão
a criança, o trabalho, o pai, a comunidade,
o sono mal dormido, o irmão,
e todos os exemplares de masculinidade.

Mulheres pelas quais a estrada ultrapassa
atropela, derruba, pressiona, esquece,
cuja história não contam, se disfarça
que o sexo frágil esmorece.

Na rocinha, no vigário, nas favelas do lins
mães, com sonhos, vencedoras, donas
de si, do próprio não, de forças assim
que levantam o sol, primeiras damas.

Mas sobre elas, a estrada passa
e nas ruas do rio, seus becos sem fim
a pê eme se vêm, na bala traça
homens, mulheres, indiferente assim.

Na estrada que fica, enlameada
a carne negra continua sendo mais barata.
Sobram as crianças, ah, as crianças,
suas lágrimas, e pouca esperança.


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Onishiroi Shonin